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30-07-2006
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Rua Dr. Pereira dos Santos, nº 359 - Centro - Itaboraí
30 de julho de 2006
Riso Amarelo
Artigo - Márcio Cotrin
 

É o sorriso forçado, meio sem jeito, constrangido. O sentido da expressão tem, evidentemente, a ver com a origem da cor amarela, que vem do latim amarus, amargo, acre, difícil, com derivação para o hispânico amarellu, pálido. Em tempos idos e vividos, o vocábulo se aplicava aos doentes de icterícia, que ficam amarelos devido a alterações na bílis, secreção amarga produzida pelo fígado. Mas o amarelo também simboliza coisas muito boas, a partir de sua afinidade cromática com o próprio Sol, fonte de vida.Antigamente, representava a cor atribuída aos deuses e ao poder dos reis, príncipes e imperadores, então considerados de origem divina. Em certas pinturas medievais, é a tonalidade de fundo para simbolizar a santidade dos retratados. Segundo Goethe,‘‘o amarelo é uma cor alegre, graciosa e terna’’.Acrescentava, porém: ‘‘mas a mais leve mistura desvirtua-a e a torna desagradável’’. Quem exibe um riso amarelo nem de longe está pensando nesses aspectos históricos positivos, e muito menos pode ser considerado doente de icterícia. Quase sempre só abre a boca num meio sorriso por questão de educação porque no fundo, no fundo, está é pensando em chupar a carótida de seu interlocutor...

BAGUNÇA — No idioma africano quicongo, a palavra bulungunza significa desordem, confusão. Já no espanhol arcaico, bagoo é báculo, cajado, bastão alto de extremidade curva, usado pelos bispos como insígnia de sua missão. Em momentos de conflagração, esse uso pacífico e quase sagrado desaparecia quando o báculo virava arma em arruaças populares. O povão servia-se dele, mas também de barras de ferro e pedaços de pau para enfrentar a polícia e os adversários.Tudo virava bagunça. Pouco tem mudado o mundo. É só abrir os jornais ou ligar a TV e você vai ver grandes bagunças ao ar livre ou em recintos fechados. Estas, aliás, têm sido freqüentes em plenários legislativos coreanos e japoneses, com uso e abuso de muito bastão profano...

PISTOLÃO — É a força que ajuda alguém a conseguir um emprego com mais facilidade.Ao contrário do que possa parecer, a palavra não é aumentativo de pistola, nem tem coisa alguma a ver com arma de fogo. Na verdade, pistolão, vem da afinidade sonora com a palavra latina epistola, carta, mensagem escrita e assinada recomendando alguém a quem possa melhorar-lhe a vida. É o padrinho apresentando o afilhado.Verdadeira instituição nacional, o pistolão é repulsivo expediente, sobretudo da vida pública brasileira, pois ignora o mérito e se limita ao apelo da amizade ou do parentesco, vício que ultimamente tem sido minimizado pela quantidade de concursos abertos a quem estuda e se esforça, sem privilégios, para assumir uma vaga em alguma empresa ou repartição do governo. O aprovado, orgulhoso por ter conquistado o posto sem empurrão, não precisa exibir riso amarelo no dia da posse...

VENENO — A palavra vem de Vênus, a deusa do amor entre os romanos, nascida da espuma do mar, mãe de Cupido, por todos desejada e em cujo nome se fazia uma poção para despertar paixões.Daí surgiu a doença venérea, também chama- da doença de Vênus,e o próprio veneno, em latim venenum. Um dos venenos que ficou na História foi a cicu- ta, utilizada na Grécia Antiga para executar condenados, um dos quais foi Sócrates que, ao receber a injusta sentença, bradou aos juízes:‘‘Vós me condenais à morte, eu vos condeno à vida’’. — que sacada! No cancioneiro popular brasileiro, o samba Gosto- so Veneno, cantado por Alcione, a Marrom, refere-se ao amor como o mais apetitoso dos venenos. Cheia de razão... n n n A leitora Shirley Sousa, de Sobradinho, DF, deseja saber a origem da expressão do tempo do ronca. Na verdade, prezada Shirley, a expressão correta é do tempo do onça, não conheço registro para esse ronca. E quem era o onça? Era o governador da cidade do Rio de Janeiro Luís Vahia Monteiro, militar português que lá chegou em 1725. Muito ranzinza e severíssimo, ganhou esse apelido de onça do povão, que o odiava. Destituído do cargo 7 anos depois, sumiu das terras cariocas deixando um rastro de profunda antipatia e a lembrança de um tempo ruim, o tempo do onça...

 
 
FONTE: JORNAL O GLOBO
Última modificação em Ter, 17 de Outubro de 2006 17:26
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