
22 de julho de
2006
Para aprender a investir em
educação
A persistência de resultados negativos na educação
brasileira pode comprometer o futuro do país, alerta o representante da Unesco no Brasil, Vincent Defourny.
Para ele, a pior das exclusões é a exclusão do conhecimento. Embora reconheça que o
Brasil tem feito esforços na área, praticamente universalizando o acesso ao ensino fundamental e
dando passos importantes no ensino médio, Defourny alerta que, num país que pouco investe no
conhecimento, persistem índices preocupantes de repetência e abandono escolar:
—
Uma educação de qualidade faz toda a diferença.
Os números demonstram que
a educação está longe de figurar no topo das prioridades nacionais. No ranking de gastos por
aluno de 1 a 4 série feito pela Unesco, com base em dados de 92 países e territórios, o Brasil
aparece em 56 lugar, atrás da Colômbia, do Uruguai e da Namíbia. O levantamento levou em conta
os investimentos de todos os níveis de governo.
Apesar de a Constituição
determinar que 25% da receita de estados e municípios sejam investidas no ensino básico, o gasto
público brasileiro com educação, segundo a Unesco, foi de 4,4% do PIB em 2002, o que deixou o
país no 77 lugar entre 133 países e territórios, empatado com o Paraguai e atrás de
Gabão e Etiópia.
Educação não é gasto, mas investimento,
“e dos melhores que o país pode fazer”, não se cansa de repetir o representante da
Unesco. O fracasso escolar, segundo ele, não pode ser explicado apenas por um conjunto de fatores
relacionados à qualidade da formação dos docentes e à estrutura pedagógica.
Defourny também responsabiliza a sociedade, que ainda não teria se convencido a pôr a
educação no topo das prioridades do país.
Para fazer a comparação
entre países, a Unesco converte as moedas em dólar pela chamada paridade de poder de compra (PPC). Um
dólar PPC expressa o mesmo poder de compra em diferentes países. Desse modo, o Brasil investiu US$
663 por aluno de ensino primário em 2002, quantia inferior aos US$ 906 gastos na Colômbia e menos da
metade dos US$ 1.452 do Chile.
— O Fundeb representa um avanço. Todavia, será
necessário nos próximos anos ampliar os investimentos em educação básica. As
metas educacionais devem receber dos governos a mesma prioridade das metas econômicas — diz Defourny.
O Plano Nacional de Educação, aprovado pelo Congresso em 2000 com metas para uma
década na área do ensino, previa a elevação dos gastos públicos para 7% do PIB
no período. O item, no entanto, foi vetado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, sob
críticas da bancada petista. Em três anos e meio, o governo Lula nem tentou derrubar o veto. A
justificativa é que só agora, com a economia mais estável, será possível
expandir os investimentos.
— Sem isso, não é possível dar
formação adequada aos professores, aumentar salários, oferecer ensino de qualidade e
incorporar os jovens que estão fora da escola de nível médio — diz o assessor especial
da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a
Cultura (OEI) e ex-representante da Unesco, Jorge Werthein.
— Gastamos pouco em
relação a outros países na educação básica. É preciso mais —
diz o ex-ministro da Educação Paulo Renato Souza.
O gerente de pesquisa em
educação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em Brasília, Jorge
Abrahão de Castro, diz que cerca de 80% dos recursos públicos investidos em educação no
Brasil financiam o ensino básico, oferecido por governos estaduais e prefeituras. Já a União
destina 61% do orçamento às universidades federais. Abrahão pondera que a estatística
brasileira sobre ensino superior inclui gastos com pesquisas, o que nem sempre ocorre em outros países.
Para a presidente do Instituto Ayrton Senna, Viviane Senna, a má qualidade da
educação corresponde a uma “máquina de extermínio” de crianças de
jovens brasileiros, já que a escolaridade tem impacto direto na saúde e na renda da
população:
— Melhorando a educação garantimos oportunidades
concretas de desenvolvimento de crianças e jovens e ampliamos as possibilidades de construção
de uma nação menos desigual.
Defourny diz que expandir o acesso, sem cuidar da carreira
e da formação dos professores, pode, a médio e longo prazos, impedir que o Brasil se beneficie
dos efeitos positivos de uma escola de qualidade para todos. Para enfrentar o desafio da repetência, ele diz
que a escola precisa oferecer às crianças pobres condições de educação e
aprendizagem que transcendam a lógica administrativa e cronológica da escola:
—
Sempre que a escola constatar uma repetência alta, a culpa deve ser dividida. Nenhum professor pode dizer que
ensinou se o aluno não aprendeu. A escola deve estar preparada para diferentes situações de
aprendizagem. Está provado que reprovar ou facilitar a promoção não resolve. O que
resolve é ter professores capazes de obter sucesso em situações difíceis.
A Unesco chama a atenção para a necessidade de um estoque de professores para alcançar a
universalização até 2015: com a aposentadoria de profissionais que estão hoje nas
escolas, serão necessários 396 mil novos docentes.
FONTE: JORNAL O GLOBO