
29 de junho de
2006
Crise na Uerj: universidade abandonada
Artigo - Andrea Antunes
Pró-reitora de Graduação, a professora Raquel Villardi diz que a
Uerj vive um momento de grave crise, fruto dos consecutivos anos de abandono por parte do governo Estadual
Com uma greve de quase três meses, a Universidade do Estado do Rio Janeiro enfrenta aquela que talvez seja
a pior crise em seus 56 anos de existência. Problemas graves de infra-estrutura e má
remuneração de professores são algumas das dificuldades enfrentadas. Isso sem falar no
vestibular para ingresso na instituição, cujo calendário chegou a ser suspenso - para a
angústia dos mais de 70 mil inscritos.
Com a experiência de quem já passou pelos bancos
acadêmicos da Uerj e hoje ocupa a sala da Pró-reitoria de Graduação, a professora Raquel
Villardi recebeu a FOLHA DIRIGIDA para falar sobre ensino superior e educação. Sobre a crise, a
pró-reitora é categórica. "O que vivemos hoje é o resultado de muitos anos de
abandono", diz ela, que estudou em uma Uerj diferente. "Na minha época o prédio era
recém-construído. Tudo era novo", lembra saudosista.
Nesta entrevista a
pró-reitora avalia o papel das universidades públicas no Brasil e a crise da Uerj. E para os
vestibulandos ela deixa um recado. "Quem vier para a Uerj estudará em uma universidade altamente
comprometida com a sociedade do Rio de Janeiro", garante. leia a entrevista:
FOLHA DIRIGIDA - Há
quanto tempo a sra. trabalha na Uerj? Já viu a universidade passar por uma crise tão grave como a de
agora?
Raquel Villardi - Estou neste prédio há 29 anos. Entrei em março de 77 pelo
vestibular. Em setembro de 1983 comecei a trabalhar como professora, numa época em que ainda havia uma
política de investimento no ensino superior. Com o passar do tempo tivemos um período largo em que
esse investimento foi deixado de lado. Hoje, temos um prédio completamente diferente daquele em que entrei
para fazer a graduação. Na época, o prédio estava recém-construído. O que
vivemos hoje é o resultado de muitos anos de abandono. Obviamente, em um país em que há tudo
por fazer, as prioridades são marcadas pelas perspectivas políticas dos dirigentes. Nesse sentido,
infelizmente, os governos do estado do Rio de Janeiro não têm priorizado um investimento estrutural na
universidade, embora, estranhamente, se solicite cada vez mais da instituição.
FOLHA DIRIGIDA
- Como assim a universidade é cada vez mais solicitada? A sra. está referindo-se à
implantação das cotas?
Raquel Villardi - Estou falando de uma série de questões
para as quais a sociedade busca a instituição no sentido de viabilizar a solução de
problemas. Por exemplo, a instituição é chamada para contribuir na despoluição
da Baía da Guanabara, no combate à violência e nas questões relativas à
política de adolescentes. Isso sem contar a preparação habitual para o mundo do trabalho, o
que faz parte da nossa missão. Nossa competência é preparar o mais abrangente e ricamente um
cidadão para o mundo do trabalho. Criaram-se diversas demandas para as quais a universidade tem que dar
repostas e, no entanto, cada vez menos ela tem reconhecida a sua importância no sentido da
alocação de recursos. A questão é que não se pode exigir que a universidade
responda a todas as demandas sem dar a ela condições para fazer isso.
FOLHA DIRIGIDA -
Não há condições para o trabalho?
Raquel Villardi - Essa é uma
questão mais séria do que pode parecer. Ninguém faz Ciência e Tecnologia sem ter
equipamentos de ponta, livros e periódicos atualizados, sem um espaço adequado para produzir.
Enquanto os governos virem os recursos encaminhados para essa atividade como gastos não sairemos do lugar.
Não há notícia de país no mundo que tenha saído de uma situação de
mediocridade para uma situação de ponta sem investimento em educação superior, no
ensino e na pesquisa. A educação está sempre nos discursos e não naquilo que vale, ou
seja, no orçamento. Aloca-se o recurso no orçamento e depois se diz que não há dinheiro
para repassar. As condições de trabalho têm relação com a existência de um
retro-projetor, de um ar-condicionado, de um data show e também com os salários. A médio prazo
o desgaste das condições salariais significa uma perda que toda a sociedade vai sentir. Claro que
nós que somos profissionais sentimos primeiro, mas toda a sociedade vai sentir. Todo mundo sabe que na
educação superior a dedicação exclusiva é uma garantia de qualidade. Hoje o que
vemos são os salários deteriorados a tal ponto que as pessoas são cada vez mais obrigadas a
buscar outras fontes de renda - e o fator público se torna secundário. Quando isso acontecer
estaremos efetivamente comprometendo a qualidade da educação.
FOLHA DIRIGIDA - Como a sra.
vê a postura da reitoria em relação ao governo do Estado, sobretudo neste momento de crise?
Raquel Villardi - Quando assumimos, em 2004, a instituição vinha de uma gestão
partidarizada. Os membros da reitoria eram membros de partidos políticos. Em uma situação
dessas é natural que atritos acontecidos no âmbito dos partidos políticos tenham reflexo no
âmbito da administração da instituição. Nós não somos membros de
partidos. Acreditamos, por isso, que o diálogo pudesse ser facilitado. Posso assegurar que a reitoria sempre
investiu no sentido de manter as melhores relações institucionais com o governo. A reitoria
não tem relações outras que não sejam institucionais com o governo e, no âmbito
dessas relações, é função da reitoria preservar canais de diálogo. Temos
encontrado no governo algumas pessoas sensíveis, preocupadas e com boa vontade, mas aqueles a quem compete
decidir em algumas esferas não têm demonstrado esse entendimento. Para esses não temos sido
felizes na tentativa de demonstrar a importância da instituição.
FOLHA DIRIGIDA - Qual o
impacto dessa crise financeira na atuação dos professores e, em conseqüência, na
formação dos alunos?
Raquel Villardi - Temos uma instituição muito particular,
em relação às demais públicas. Ao contrário das federais, cujos cursos, em
grande parte, são de horário integral, a Uerj sempre teve um compromisso evidente com a
população de estudantes trabalhadores do nosso estado. Nossos professores e técnicos
estão trabalhando no limite, mas tenho certeza que esse compromisso ainda impera e assegura a qualidade.
FOLHA DIRIGIDA - Alguns educadores apontam que o tradicional sonho de ingressar em uma universidade
pública já não é de todos - devido às constantes greves e ao sucateamento dessas
instituições. A sra. concorda com essa visão?
Raquel Villardi - Muitas vezes, na
educação, passamos por uma dificuldade de julgamento, como acontece na área da saúde.
Tendemos a achar que um hospital mais maltratado é pior do que um todo bonito e arrumado. E isso não
é sempre verdade. As instituições públicas, do mesmo modo que algumas particulares,
investem ainda uma quantidade significativa do seu recurso em atividades muito difíceis de serem realizadas
nas particulares. Quando a lei estabelece que a educação superior deve ser feita em cima da
articulação ensino, pesquisa e extensão, não faz isso à-toa. A
formação não pode ser feita apenas à luz das exigências do mercado profissional
de hoje. A educação superior é o momento da vida do estudante em que ele é instado a
pensar. E é esse exercício do raciocínio e da crítica que vai permitir que essa
formação perdure para além de um tempo em que as certezas se dissipam. Como se funda esta
mente crítica? Através de uma atividade do professor, que por sua vez vai refletir seu
espírito de pesquisador. Não estou falando de formar para a pesquisa, mas de formar com a pesquisa.
Formar o espírito investigativo. Participar desse processo de forma integrada traz ao estudante uma riqueza
de formação capaz de fazer com que essa formação persista ao longo dos anos, ainda que
aquilo que ele aprendeu se torne obsoleto. Um prédio bonito não é segurança de
qualidade. Construir escolas é fácil. Difícil é construir a massa crítica que
está lá dentro.
FOLHA DIRIGIDA - Mas, na sua percepção, os estudantes
estão menos motivados para estudar em instituições públicas?
Raquel Villardi -
Essa não é a minha percepção. Eles preferem as públicas porque elas continuam
mantendo um padrão de excelência.
FOLHA DIRIGIDA - Na sua opinião, diante do
acúmulo de problemas, qual é o futuro da universidade?
Raquel Villardi - É
impossível você ver hoje alguém que consiga visualizar um ideal de futuro sem que ele tenha a
educação colocada como fio condutor. A grande questão é que há 30 anos nossas
mães falavam: "estude para ser alguém na vida". Hoje temos um conjunto enorme de estudantes
que fazem o curso superior com sacrifício e não encontram no país uma estrutura de
desenvolvimento capaz de reconhecer sua capacidade, de aproveitar seu talento. O que quero dizer é que um
projeto de educação precisa caminhar agregado a um projeto de desenvolvimento de país. Da
mesma forma que não há um desenvolvimento de país sem educação, não
há desenvolvimento de educação sem um projeto de desenvolvimento de país. Essas
questões não podem ser vistas de forma indissociada. Muito se tem falado da crise da
educação. Eu costumo dizer que ainda bem que estamos em crise, pois em tempos de crise precisamos nos
repensar, nos refazer. O que não podemos é prolongar indefinidamente a crise. Estou abrindo esse
leque para uma crise maior do que a exclusivamente financeira. Uma crise que faz com que tenhamos que nos expor
para a sociedade e nos leva a repactuar nossa existência com essa sociedade. Isso significa que nossa
existência se prende àquilo que a sociedade espera que sejamos capazes de fazer. É por isso que
não entendo como uma pessoa que vem de uma formação acadêmica, diz que a universidade
deve buscar recursos externos, que não deve viver de mesada. É preciso lembrar que quem paga é
que estabelece as regras. Neste caso, a universidade pública passará a atender aos interesses
privados e não aos públicos. Não é este o papel das instituições
públicas. Buscar parcerias, responder às demandas da sociedade é de uma natureza; depender da
iniciativa privada para sobreviver é muito diferente...
FOLHA DIRIGIDA - E as universidades têm
conseguido cumprir seu papel e mostrar para a sociedade a sua importância?
Raquel Villardi - Acho que
elas têm cumprido o seu papel, mas de um modo geral não conseguem fazer isso aparecer. A leitura que
faço é que passamos por um período em que ficou evidente a deteriorização do
reconhecimento social do magistério como profissão. O professor passou a ganhar cada vez menos
- o que o levou a ter um reconhecimento social menor. Percebemos isso de diferentes maneiras e só reparar o
espaço que é dado para um cientista na mídia e para um artista. Vamos perdendo esse
espaço e o reconhecimento social. Criou-se um círculo vicioso. Quanto menos eu apareço, menos
a sociedade me reconhece. O problema é que quanto menos apareço mais estou sujeito as
intempéries desse ou daquele governante. O que vemos é um conjunto de ações
significativas das instituições que não são reconhecidas como da
instituição. Os programas de ação de voluntariado, jamais, por mais deteriorados que
sejam os hospitais públicos, acharam que algum leigo devesse entrar nos hospitais e sair fazendo cirurgias.
Mas imagina-se como muito positivo que pessoas leigas entrem nas escolas e ocupem o espaço de profissionais
que não estão ali porque os governos não reconhecem a sua importância.
FOLHA
DIRIGIDA - Qual o impacto da implementação da política de cotas na Uerj?
Raquel
Villardi - Apesar de todas as dificuldades e do despreparo da instituição para oferecer a eles aquilo
a que têm direito, em termos de infra-estrutura, acho altamente positivo. Não quero só que eles
entrem e sim que saiam com uma formação sólida, consistente. Posso garantir que não
há no mundo estudo que negue a relação entre escolaridade e renda. Nas circunstâncias de
termos um país com absurda desigualdade social, a melhor forma para diminuir esse abismo é favorecer
o acesso à escolaridade. Pode-se verificar o nível de exclusão de uma pessoa verificando o
ideal de futuro que ela traça para si. Não há excluído que consiga construir na sua
cabeça um ideal de futuro. Pergunte para uma criança de 9 anos, que está cortando cana, o que
ela será quando crescer. Ela não consegue fazer essa formulação. No máximo
formula algo no âmbito de um desejo que ela sabe, de antemão, ser inalcançável. Penso
que as políticas que podem fazer com que essa idéia de um futuro melhor para todos seja devem ser
fortemente apoiadas. Mas não se faz política desse porte com ações isoladas. Sou
favorável às políticas de ação afirmativa e reconheço que elas têm
origem na incapacidade da escola básica de formar seus estudantes. Reconheço a necessidade de um
investimento maciço na educação básica, mas não é possível esperar
pelos resultados desse investimento, porque a vida não espera. É preciso lembrar, no entanto, que a
questão do acesso não é só entrar. O número de formandos é pequeno em
relação aos que ingressam. Isso sempre foi assim. A necessidade da sobrevivência fala mais
alto.
FOLHA DIRIGIDA - E para falar de vestibular... O Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e
Extensão da Uerj suspendeu o calendário do vestibular 2007 sob a alegação de que a
universidade não tinha condições de receber novos alunos. Nada mudou e o calendário foi
retomado. Porque a Conselho voltou atrás? A Uerj pode diminuir a oferta de vagas para este ano?
Raquel Villardi - A universidade esperou o quanto pôde por uma resposta positiva do governo, o que
não aconteceu. Diante desse quadro, a Uerj entendeu que manter o calendário suspenso representaria um
prejuízo enorme para a sociedade e, sobretudo, para os inscritos. Com base nesse entendimento, a
instituição vai realizar a prova mantendo uma comissão que acompanhará de perto a
situação de ingresso dos novos alunos. O que significa que até a colocação do
quadro final de vagas teremos uma equipe de conselheiros trabalhando para ver as reais condições da
universidade de receber os estudantes.
FOLHA DIRIGIDA - Mas a Uerj pode oferecer menos vagas do que nos anos
anteriores?
Raquel Villardi - Essas condições serão avaliadas atentamente pelo
Conselho.
FOLHA DIRIGIDA - O que os jovens que ingressarem na Uerj vão encontrar?
Raquel Villardi
- Podem esperar uma formação honesta, segura e consistente. Eles estarão em uma
instituição altamente comprometida com a sociedade do Rio de Janeiro.
Fonte: Folha Dirigida