MATÉRIA REFERENTE AO PRIMEIRO BIMESTRE DE 2010
Natália SoaresO primeiro contato que o embaixador Fernando Reis, diretor-geral do Instituto Rio Branco, teve com a diplomacia foi pelo personagem Conselheiro Aires, dos livros "Esaú e Jacó" e "Memorial de Aires", de Machado de Assis.
- Eu li os livros quando adolescente e me ocorreu que Machado de Assis, quem diria, tinha uma vocação frustrada de diplomata. Aires, diplomata aposentado, era o alter ego do autor, ao mesmo tempo homem do mundo e solitário cronista-filósofo. Algo me ficou dessa impressão forte - acredita ele.
Embaixador no Japão de 1996 a 2001, cônsul-geral em Roma de 2001 a 2004, Reis também serviu em Paris, Tóquio e Buenos Aires. Nascido em Ribeirão Preto e formado em Direito e Filosofia pela UFRJ, ele acredita que o curso de Relações Internacionais oferece muitas oportunidades e dá um conselho a quem estuda o tema: "Leia, leia, leia". E para quem ainda está em dúvidas a respeito da formação generalista do curso, ele compara RI a lentes de câmeras fotográficas:
- O foco de um curso de Relações Internacionais equivale ao de uma grande angular, o que não exclui o uso de outras lentes; um curso de Direito ou Economia usa lentes micro e macros, mas dentro de um campo de visão mais limitado.
Em que áreas um bacharel em Relações Internacionais pode atuar? (Larissa Nascimento)
FERNANDO REIS: São muitas as oportunidades. É essa exatamente a natureza de um curso de RI: abrangência e flexibilidade, já que cobre um leque de conhecimento amplo e abre perspectivas em História, Direito, Economia, Ciência Política, sem falar da própria matéria-alvo, os assuntos internacionais. Quem quer fazer carreira acadêmica tem várias opções de pós-graduação. Em termos de mercado de trabalho, um bacharel em RI pode atuar em empresas públicas e privadas e organismos internacionais, prestar concursos públicos de nível superior ou seguir a carreira diplomática.
No mercado, muitos não vêem Relações Internacionais como uma carreira, já que, ao se formar, a pessoa não tem uma profissão específica - ao contrário do economista, do advogado ou do administrador. Como mudar a imagem do curso? (Tom Canabarro)
REIS: Essa situação tende a mudar, se é que já não mudou. Depende do perfil da empresa e da competência do candidato. Diria que o foco de um curso de RI equivale ao de uma grande angular, o que não exclui o uso de outras lentes; um curso de Direito ou Economia usa lentes micros e macros, mas dentro de um campo de visão mais limitado. Entramos aqui no problema, ainda em aberto, de saber se é possível regulamentar para fins de mercado uma profissão generalista. A filosofia, por exemplo, foi e continua sendo indispensável para o conhecimento, mas nunca ouvi falar de alguém que ganhe a vida dando consultas regulares de filosofia.
Sou estudante de Relações Internacionais no interior do Mato Grosso do Sul. Gosto do curso, mas sinto que a faculdade deixa a desejar. Como fazer para melhorar a qualidade dos meus estudos? (Vanusa Oliveira)
REIS: Se afirma que a faculdade "deixa a desejar", ou isso é injusto ou você já tem condições de caminhar por conta própria. Não se engane: por melhor que seja a faculdade, o conhecimento que o estudante recebe é de empréstimo. Terá que metabolizá-lo por conta própria. Meu conselho é: leia, leia, leia. As indicações bibliográficas que você já tem levarão a outras e, depois, outras. Confie em você, faça seu caminho, e as oportunidades surgirão.
O curso de RI é o mais adequado para quem pretende prestar concurso para o Instituto Rio Branco? (Márcio Pinto)
REIS: A formação proporcionada por um curso de RI pode ser valiosa para o ingresso na carreira diplomática e para o próprio exercício da diplomacia. A carreira, no entanto, comporta qualquer tipo de formação, desde que o essencial esteja garantido: pensar bem. Por sua natureza essencialmente política, todos os ramos do saber interessam ao agente diplomático, para que possa tratar, com competência, dos problemas nacionais e melhor defender os interesses da sociedade brasileira.
Para quem quer seguir carreira diplomática, é um diferencial cursar uma universidade no exterior? (Flávio Romano)
REIS: A experiência de estudar no exterior é enriquecedora, pelo contato com outra cultura e pela possibilidade de se chegar a um domínio mais fluido de uma língua estrangeira. Não devemos esquecer, contudo, que o ingresso e o desempenho como diplomata brasileiro exigem profundo enraizamento na realidade brasileira. Quem estudar no exterior deverá encontrar meios de suprir o distanciamento em relação a nossas história, realidade econômica e social, forma de atuar internacionalmente e a nossos interesses.
Quais são os prós e contras da carreira diplomática? (Thiago Prado)
REIS: Onde estão os contras estão os prós. A carreira oferece oportunidades na mesma medida em que propõe desafios. E os desafios surgem, inescapavelmente, porque a diplomacia não dispõe de roteiro prévio. É como a vida, que não comporta biografia antecipada. Aliás, não é outro o encanto da carreira. De qualquer forma, uma coisa é certa: a diplomacia convive mal com a mediocridade.
Jornal O Globo | Publicada em 29/07/2008
Informação em Destaque: Texto sublinhado e negrito
Esta notícia foi reproduzida para fins didáticos





































