O “Dia da Infâmia”, conforme a manchete do GLOBO do dia 12 de setembro de 2001, mudou o mundo, a História e todos nós. Descobriu-se, em estado de choque, que o terrorismo insano poderia atingir qualquer um em qualquer lugar — mesmo num escritório de dois dos mais modernos prédios de Nova York, símbolos da cidade, a maior metrópole da única superpotência; ou no comando da maior máquina de guerra mundial — o Pentágono, em Washington.
Os americanos se uniram na estupefação e na dor com a morte de 2.977 pessoas (fora os 19 sequestradores, que também morreram) nas torres do World Trade Center, no Pentágono e num descampado da Pensilvânia, para onde heroicos passageiros em luta com os terroristas empurraram um quarto avião cujo destino seria a Casa Branca ou o Congresso. O mundo se uniu aos EUA em fervorosa solidariedade. “Somos todos americanos”, estam pou o “Le Monde”, de Paris, uma surpresa em se tratando de um jornal francês. Foi nesse espírito que a ONU aprovou a invasão, por uma coalizão comandada pelos EUA, do Afeganistão, cujo regime fundamentalista islâmico do Talibã dera refúgio àquele que planejou os infames atentados — Osama bin Laden, o chefe da rede terrorista al-Qaeda, comandante de uma guerra global contra o Ocidente. Ele vencera estrepitosamente a primeira batalha e forjara uma situação explosiva: a intolerância ao Islã, cobrindo uma grande religião monoteísta com as tintas de uma minoria de fanáticos.
O Ocidente caiu na armadilha. Sob pressão, o trio Bush, Cheney e Rumsfeld viu a caçada a Bin Laden se tornar um pesadelo nas montanhas de Tora Bora, no Afeganistão. Não tardou a eleger um novo inimigo tão poderoso quanto Bin Laden porque teria armas de destruição em massa: Saddam Hussein. Era falsa a premissa, apontada na época por inspetores da ONU, inutilmente. A invasão do Iraque, sem apoio da ONU, mostrou-se um colossal erro de avaliação. Embora tenha livrado o mundo de um ditador cruel, jogou o Iraque num caos de atentados sectários, em meio a uma guerra civil, de que resultaram as mortes de mais de cem mil civis iraquianos e 4.500 americanos. E pôs em segundo plano a luta no Afeganistão, de difícil solução ainda hoje, e com reflexos no instável e nuclear Paquistão. Na guerra ao terror, o presidente Bush atropelou princípios caros à democracia americana, passando a admitir prisões ilegais, julgamentos sumários e torturas. Em boa parte, estama eleição de Barack Obama respondeu à vontade dos americanos de ver esses princípios novamente respeitados. O novo presidente substituiu o “big stick” pelo “soft power”, diluindo a intolerância ao Islã. Por ironia, coube a seu governo localizar e matar Bin Laden, em maio passado. Hoje o mundo enfrenta grave crise econômica, agravada, em alguma medida, pelos efeitos perversos sobre as contas públicas americanas dos gastos com guerras simultâneas.
Uma lição do 11/9 é que os povos precisam se unir em torno dos valores da Humanidade. Fatos animadores surgem em países muçulmanos com a Primavera Árabe — a luta bemsucedida de povos do Norte da África para se livrar de ditadores opressivos. Que nesses países onde se começa a trilhar um caminho novo possam conviver diferentes valores políticos, ideológicos, religiosos. Este seria o melhor antídoto contra o ódio de que 11 de setembro de 2001 se tornou triste símbolo.
Fonte: Jornal O Globo | Publicada em 11/09/2011
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