Quando os parentes das 2.973 vítimas dos atentados no World Trade Center e no Pentágono e dos sequestros dos quatro aviões passarem os dedos sobre os nomes gravados em bronze no memorial do 11 de Setembro, aberto neste domingo às famílias e amanhã ao público, Nova York estará começando a fechar uma ferida de 65 mil metros quadrados aberta no coração da cidade há dez anos.
O memorial - apropriadamente chamado de "Refletindo a ausência" pelo arquiteto israelense-americano Michael Arad, que o concebeu como cascatas que desaguam sobre espelhos d'água nos marcos das Torres Gêmeas, em um patamar inferior - é o primeiro de uma série de novos ícones de Nova York que redefinirão a paisagem urbana da cidade até 2016.
- Vamos abrir um novo capítulo. Será um lugar para os visitantes fazerem seu tributo e uma forma de lembrar constantemente não apenas o que sofremos, mas nossa capacidade de nos unirmos após uma tragédia - disse Joe Daniels, presidente da memorial e do museu.Simbolismo até na altura da torre
Os nomes estão arrumados em nove grupos: um para as seis vítimas do primeiro atentado contra o WTC, em 26 de fevereiro de 1993, dois para os mortos nas Torres Gêmeas, quatro para os passageiros dos aviões sequestrados, um para os funcionários do Pentágono, e um para as pessoas que morreram no trabalho de socorro às vítimas, como bombeiros, paramédicos e policiais. A ordem não é alfabética nem convencional: os organizadores montaram um quebra-cabeças para encaixar as conexões afetivas entre as vítimas, atendendo a mais de 200 pedidos das famílias.
A cicatrização continuará ao longo dos próximos cinco anos. O World Trade Center 1, também chamado de Freedom Tower (Torre da Liberdade), que será inaugurado em 2013, sobe rapidamente rumo à sua altura definitiva: 1.776 pés (541 metros), em homenagem ao ano da independência dos EUA. Atualmente, está com 80 dos seus futuros 104 andares, com os quais retomará o posto de edifício mais alto da cidade, a exemplo das antigas Torres Gêmeas. O WTC 7 inaugurado, em 2006, já está com seus 170 mil metros quadrados de área de escritório quase totalmente ocupados.
Um dos líderes do empreendimento, Larry Silverstein, se lembra do ceticismo pós-11/9, quando muitos duvidavam que o chamado Downtown, o centro financeiro e de negócios, fosse capaz de se recuperar do baque. Coberta de cinzas, interditada à circulação, a região ficou semideserta por meses. Empresas tiveram que realocar os escritórios em outras partes da cidade. Silverstein comemora o fato de o grupo Condé Nast ter se apresentado como âncora do novo prédio, ocupando um espaço de 92 mil metros quadrados, em 20 andares, em aluguel subsidiado pela Autoridade Portuária de Nova York e Nova Jersey, a agência governamental responsável pela reconstrução do WTC.
Silverstein responde com bom humor às críticas dos que chamam o complexo de prédios de "elefante branco". A um custo de US$ 3,3 bilhões, a Freedom Tower, desenhada por David Childs, é o alvo mais evidente da reprovação pelo gasto de US$ 11 bilhões com subsídio governamental, especialmente em uma época de recessão econômica.
- Em 50 anos no ramo, aprendi que nunca se deve apostar contra Nova York. Esta cidade sempre volta melhor e mais forte. E aprendi que, se você construir, as pessoas virão. E, finalmente, aprendi que a melhor época para construir é na baixa, porque quando você terminar as obras, provavelmente o mercado em NY já estará em alta de novo - disse Silverstein.
Para uma retomada espetacular, foram contratados grandes nomes da arquitetura mundial: o espanhol Santiago Calatrava projetou a nova estação de transportes; o japonês Fumihiko Maki, responsável pelo projeto de expansão da ONU, assumiu a torre 4, que terá seus 72 andares concluídos em 2015. E os britânicos Norman Foster (autor do desenho da torre da Hearst Corporation, em Manhattan), e Richard Rogers (criador do Centro Georges Pompidou, em Paris), foram encarregados das torres 2 e 3, que devem ficar prontas até 2016. E, finalmente, o americano Frank Gehry recebeu a encomenda de um centro de artes.
A área pública, metade do espaço total, incluindo um bosque, atenderá também à população do sul de Manhattan, que dobrou nos últimos dez anos, chegando a 60 mil habitantes.
- Acredito que o renascimento da parte sul de Manhattan será lembrado como uma das grandes viradas da História dos Estados Unidos - disse na semana passada o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, eleito em novembro de 2001.
Um tom triunfalista desponta em alguns dos discursos que precederam a inauguração do memorial. Segundo Robert Shapiro, especialista em opinião pública da Universidade Columbia que acaba de lançar o livro "Selling fear" (Vendendo medo), sobre o pós-11/9, data que será sempre um marco para os EUA.
- Há um simbolismo muito forte do local e da data. Mas também há um simbolismo da volta por cima. Outra coisa que explica esse tom é que os responsáveis pelo projeto estão respondendo às críticas pela demora. É um pouco decepcionante que em dez anos só tenham chegado a este ponto - disse Shapiro.
Peças resgatadas dos escombrosO local onde o World Trade Center foi destruído continua sendo um imenso canteiro de obras, com mais de três mil trabalhadores. Por isso, visitantes precisam de passes (gratuitos) reservados no site do memorial . O Museu do 11 de Setembro, projeto do escritório de arquitetura norueguês Snøhetta, só será inaugurado no ano que vem. Será um museu subterrâneo, que levará o visitante às fundações do WTC.
Enquanto as obras do museu terminam, o visitante já pode ver, no átrio envidraçado seu símbolo mais forte: dois tridentes de aço (enferrujado pelo fogo) recuperados da fachada da Torre Norte. Entre os milhares de objetos coletados ao longo de meses, estão um caminhão dos bombeiros retorcido pelas chamas e a cruz formada por duas peças de ferro soldadas naturalmente no incêndio. O museu terá uma grande variedade de arquivos de mídia, entre os quais um vídeo feito da Estação Espacial Internacional e narrado pelo astronauta Frank Culbertson.
- Posso ver Nova York e a coluna de fumaça saindo das torres - diz Culbertson. - Mas posso assegurar que Nova York continua uma grande cidade, vista aqui de cima.
Fonte: Jornal O Globo | Publicada em 11/09/2011
Informação em Destaque: Texto sublinhado e negrito
Esta notícia foi reproduzida para fins didáticos
Todos os direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A.





































