MINNEAPOLIS, Minnesota - A maior comunidade muçulmana somali dos Estados Unidos, em Minnesota, costuma celebrar o Eid al-Fitr, o fim do mês sagrado do Ramadã, no shopping Mall of America, em Minneapolis. Este ano não foi diferente.
- Hoje, em vez de visitar os amigos e reunir familiares em casa, vamos ao shopping consumir e comer um hambúrguer juntos. É o Islã capitalista - comenta, em tom irônico, o líder comunitário Abdirizak Bihi, de 46 anos.
Ao circular pelas ruas do bairro conhecido como "Little Mogadiscio" (Pequena Mogadíscio, alusão ao nome da capital da Somália), onde vivem cerca de dez mil imigrantes somalis em Minneapolis, o magricela e irrequieto ativista é cumprimentado por todos os passantes, e chamado de uncle (tio) pelas crianças. Bihi alcançou a notoriedade ao se destacar em meio aos depoimentos de polêmicas audiências do Congresso sobre o "crescimento da radicalização da comunidade muçulmana americana", em março.
Diretor e único funcionário do "Centro Somali de Educação e Advocacia Social", Bihi inicia invariavelmente seu dia nas mesas de um dos cafés Starbucks das redondezas, constantemente repleto de imigrantes somalis a debater temas políticos de seu país de origem.- Sempre que me aproximo, mudam de assunto porque sabem que eu os critico por não atentarem para os problemas aqui da comunidade e por deixarem os jovens mais vulneráveis ao extremismo - conta o ativista.
O primeiro homem-bomba suicida americano, Shirwa Ahmed, residia em Minneapolis antes de partir para a Somália e participar de um atentado que matou 21 pessoas, em outubro de 2008. Nos últimos cinco anos, mais de 20 jovens somalis deixaram a comunidade para integrar o grupo terrorista al-Shabab, aliado da rede al-Qaeda, na África. Bihi acredita que o número oficial é apenas "a ponta do iceberg".
- Eu mesmo sei de vários outros casos não registrados. As mães têm medo de informar o desaparecimento de seus filhos ao FBI (a polícia federal americana). Uma delas chegou a me dizer, implorando para que não alertasse os agentes: "Eles vão vir aqui, destruir as mesquitas e nos matar a todos" - diz Bihi.
De Minnesota para o al-ShababHá dois meses, Farah Beledi, outro somali-americano de Minneapolis, morreu num atentado suicida em Mogadíscio. A lista de jovens que deixaram os EUA para aderir à jihad inclui Burhan Hassan, de 17 anos, sobrinho de Abdirizak Bihi, filho caçula de sua irmã. Sua ausência foi notada em 4 de novembro de 2008. Quatro meses depois, foi morto em um combate na Somália. Mas mesmo antes desse drama familiar, o líder comunitário já havia se imposto como missão impedir que os jovens locais fossem tentados a abraçar o radicalismo islâmico - militância que credita ao fato de o pai, um ativista político, ter permanecido 17 anos preso na Somália.
- Mais de 70% da comunidade vivem no limite da pobreza, isso é o paraíso para a al-Qaeda. Os jovens, desamparados, se tornam presa fácil. Os radicais são muito espertos, estão organizados dentro da mesquita Abubakar al-Saddique (a maior do Minnesota, frequentada por todos os jovens que partiram para a Somália), usam a discriminação e a precariedade para estimular a visão extremista islâmica. Beledi, o último homem-bomba americano, não ia à escola, não tinha onde morar. A al-Shabab levou-o para a mesquita, deu-lhe trabalho, reabilitou-o. Mas para que fim? Para, dois meses depois, explodi-lo na Somália - resume.
Ahmed Abdi, de 24 anos, trabalha no café da mesquita Darul-Quba, é apaixonado por futebol - joga na equipe amadora Kalsooni Team - e sonha em atuar em computação.
- O 11 de Setembro obviamente piorou a imagem dos muçulmanos e deixou a vida mais dura para a comunidade. Eu nunca fui explicitamente discriminado, mas é algo que está no ar. Nós nos acostumamos à islamofobia, mas acho que aos poucos as coisas estão melhorando; as pessoas se dão conta de que os atos danosos não têm a ver com a religião em si, mas com a ação de indivíduos. Se um cristão comete um crime, quer dizer que todos os cristãos são criminosos? - indaga.
Recursos chegam tardeO jovem sorri desconcertado ao ser questionado se, de alguma forma, se sente americano:
- É como perguntar se sou ocidentalizado. Eu posso dizer que me sinto como alguém de Minnesota, gosto deste estado. Mas a minha preocupação é com a situação econômica, minha família e meus amigos.
Assentado no Starbucks, Omar Jamal, primeiro-secretário da missão somali na ONU, denuncia a marginalização da comunidade no rastro dos atentados que destruíram as Torres Gêmeas, em Nova York.
- Isso levou os jovens a formar gangues, a começar a roubar. E logo depois tivemos duas dezenas deles partindo para integrar o al-Shabab. O FBI está construindo uma grande sede aqui em St. Louis Park. Minnesota se tornou uma das maiores investigações terroristas desde o 11 de Setembro. A grande preocupação é a de que esses jovens com passaportes americanos sejam treinados na Somália e retornem para cometer atentados aqui.
Jamal critica a abordagem dos serviços de segurança e inteligência americanos nos inquéritos sobre a comunidade muçulmana.
- Na mente do FBI, se você for à mesquita hoje, se tornará um suspeito. Estabeleceu-se uma perda de confiança na comunidade, um distanciamento. Felizmente, desde o 11 de Setembro houve uma melhora. A polícia se deu conta de que a perseguição abusiva e o uso da força torna os jovens suscetíveis ao recrutamento do al-Shabab. Mas só agora o presidente Barack Obama anunciou a liberação de recursos para ajudar os jovens daqui. Talvez um pouco tarde.
Negros, além de muçulmanosNeste ano, um dia depois da invasão somali no Mall of America, a comunidade conseguiu arrecadar dinheiro para organizar um festejo de encerramento do Ramadã no Centro Comunitário Bryan Cole, em "Little Mogadíscio". Numa bela tarde de sol, sorridentes mulheres, cobertas pelo hijab, o véu islâmico, dançavam animadamente em grupo, enquanto alegres crianças saltitavam em brinquedos infláveis ou passeavam no dorso de um dromedário alugado. Numa banca improvisada, Fatuma Mohamed vendia todo tipo de objetos, a qualquer preço, como doação para a tragédia da fome que assola a Somália.
Fugida da guerra civil em seu país, Fatuma chegou aos EUA em maio de 2001, pouco antes dos atentados de setembro:
- A discriminação não é visível, mas se sente. Quando se é de um outro país, não tem como não se sentir um pouco estrangeiro, mas aqui o peso é maior quando se é muçulmano e negro - sentencia.
Fonte: Jornal O Globo | Publicada em 11/09/2011
Informação em Destaque: Texto sublinhado e negrito
Esta notícia foi reproduzida para fins didáticos
Todos os direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A.





































