- Precisei ter muito foco para não enlouquecer. A minha vida mudou muito, trabalhei bastante nos anos que se seguiram aos ataques. Não costumo pensar no dia seguinte, mas na nova fase. - contou o arquiteto Robert Eisenstat, que estava no elevador da Torre Norte no momento do ataque.
Logo após o 11 de Setembro, o departamento de saúde de Nova York criou três programas para tratar vítimas que, além dos problemas psicológicos, tiveram também problemas respiratórios por causa da fumaça e da nuvem de poeira que se formou depois do desabamento das Torres Gêmeas. O governo nova-iorquino estima que 25% das pessoas tratadas até hoje apresentaram problemas físicos e psicológicos, simultaneamente.
O Transtorno de Estresse Pós-Traumático tem um diagnóstico amplo, e muitas vezes controverso, por isso o governo faz apenas uma estimativa sobre as pessoas que desenvolveram o problema após a tragédia de 2001. O psiquiatra e investigador do Instituto D'Or Dr. Leonardo Fontenelle explica que, apesar do transtorno ter ganhado diagnóstico oficial há 30 anos, ele está muito ligado à definição de trauma.
- O diagnóstico é controverso porque os problemas começam com a definição de trauma, que vem sendo muito debatida ao longo dos anos. Tem profissionais, por exemplo, que acreditam que o trauma não necessariamente envolve pânico ou desamparo. Outros usam critérios ainda mais rígidos. - afirmou Fontenelle.
A doença, que costuma vir acompanha de flashbacks, pesadelos, ansiedade e insônia, frequentemente assume caráter crônico e é despertada após um evento de traumático, como o próprio nome denuncia. Algumas pesquisas, no entanto, afirmam que quase 90% das pessoas vivem algum tipo de trauma ao longo da vida, mas poucas desenvolvem o transtorno. Fontenelle explica que para desenvolver o estresse pós-traumático o paciente deve compartilhar o choque com sentimentos de desamparo e pânico.
Sobreviventes evitam falar sobre o trágico diaNão é raro perceber que sobreviventes do World Trade Center costumam evitar relembrar os ataques, alguns se recusam a dar qualquer tipo de entrevista. O mesmo acontece com parentes de vítimas. Apesar de não ter problema em falar sobre o tema, nem ter desenvolvido nenhuma síndrome psicológica, Eisenstat, que trabalhava nas Torres Gêmeas, hesita em dar detalhes do dia. Se para alguns, o tratamento se deu por medicamento, Eisenstat viu no trabalho sua grande terapia. Funcionário do Port Authority há mais de 20 anos, o arquiteto ajudou na reconstrução da estação que substituiu temporariamente a que ficava no pátio comum do WTC e no planejamento do transporte, entre eles da linha entre Nova York e Nova Jersey, que ficou suspensa após os ataques.
- Eu tive muita sorte porque quando estava quase no térreo da Torre Norte, senti uma poeira, achei que fosse um teto caindo, mas era o outro prédio que tinha desabado. Então tivemos que subir um andar de novo e sair por outra porta, nos fundos, para não sermos expostos aos destroços e à espessa nuvem de cinzas - contou o arquiteto - Depois que saí, não olhei mais para trás e acabei não vendo as pessoas se atirando do alto da torre, o que para muitos sobreviventes foi o mais traumatizante.
O americano confessou, porém, que muitas pessoas adiantaram a aposentadoria ou pediram transferência da Port Authority, órgão que controlava o WTC. Segundo Eisenstat, só metade da atual equipe estava na entidade em 2001, quando pelo menos 800 funcionários morreram nos ataques. Mas, foi justamente o trabalho que o impediu de ficar paranoico, contou ele, que também trabalhava no complexo quando um carro bomba explodiu no estacionamento de uma das torres, em 1993.
- Ajudar na reconstrução do transporte nos arredores do WTC acabou sendo muito positivo para mim - contou o arquiteto.
Fonte: Jornal O Globo | Publicada em 11/09/2011
Informação em Destaque: Texto sublinhado e negrito
Esta notícia foi reproduzida para fins didáticos
Todos os direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A.





































