Bin Laden teria aprendido no conflito entre o Afeganistão e a antiga União Soviética na década de 1980 que não se ganha uma guerra contra um império somente no campo de batalha, mas no gradual desgaste econômico causado pelos custos de um conflito, argumenta Daveed Gartenstein-Ross, especialista em contraterrorismo, em artigo publicado na "Foreign Policy" logo após a morte do terrorista.
A tese é alvo de debate, mas a resposta americana aos atentados - com as guerras do Afeganistão e do Iraque - representou um aumento constante de gastos militares custeados com base em empréstimos, o que contribuiu para acentuar ainda mais o endividamento do país. Segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, em preços constantes, os gastos militares saltaram de US$ 378,9 bilhões em 2001 para US$ 687,1 bilhões no ano passado. Proporcionalmente também houve aumento: as despesas passaram de 3,1% no começo da década passada para 4,7% do Produto Interno Bruto em 2009.
Barry Bosworth, especialista do Brookings Institution, destaca que o aumento de gastos com segurança foi disseminado entre os setores público e privado e atingiu indústrias em todas as regiões.
- É importante destacar que nada do gasto público foi pago até agora. Eles foram em grande parte resultado de empréstimos no mercado internacional - disse o especialista ao GLOBO.
Na prática, Bosworth destaca que houve uma mudança na composição da indústria, que se voltou mais para a área de defesa do que para o investimento em bens de consumo. O resultado foi um aumento da presença de importados na cesta de produtos do consumidor americano, o que contribuiu para enfraquecer a economia no cenário recente de crise financeira.
Juros de até US$ 1 trilhãoUm dos exemplos do aumento de gastos em defesa foi a criação do Departamento de Segurança Interna, em outubro de 2001, para coordenar o trabalho de outras agências de governo. Somente a criação deste órgão resultou em despesas de quase US$ 20 bilhões no orçamento de 2002 e de quase o dobro no ano seguinte.
- Sabemos que o 11 de Setembro tem relação direta com a crise econômica de 2008 e com a crise atual, mas o que está em discussão é a medida dessa interferência. Temos vividos mergulhados em empréstimos - disse ao GLOBO Olívia Jackson, especialista em terrorismo e impacto econômico da Florida Memorial University, em referência à recente discussão no Congresso sobre o aumento do limite de endividamento do país, estimado anteriormente em US$ 14,3 trilhões, para evitar um calote.
O estudo mais abrangente sobre o tema, feito pela Brown University, estima que os gastos totais das guerras do pós-11/9 podem chegar a US$ 4 trilhões, uma cifra equivalente aos déficits orçamentais acumulados no período entre 2005 e 2010. Esse valor considera não somente despesas diretas, como também o pagamento dos juros dos empréstimos que devem chegar a US$ 1 trilhão até 2020 e os gastos de saúde dos veteranos de guerra, um item que só deve atingir o patamar máximo de gastos, estimado em US$ 1 trilhão, dentro de 30 a 40 anos. Na prática, os dados mostram que os gastos de uma guerra não se encerram ao fim do combate.
Essa percepção de que a guerra deixou como herança um legado de dívidas com parcelas de pagamento a perder de vista é relativamente recente. Inicialmente, havia um consenso entre os analistas de que o efeito seria imediato e de curto prazo, capaz de levar uma economia com sinais de fraqueza rumo à recessão. De acordo com estudo elaborado por Olivia, os setores afetados quase instantaneamente pelos ataques foram os de aviação, seguros e a cidade de Nova York, que da noite para o dia perdeu 30% dos espaços de escritório no sul de Manhattan e enfrentou o corte ou transferência de 200 mil empregos.
Em âmbito nacional, o impacto foi mais modesto, com uma recuperação impulsionada pela política de juros muito baixos implementada pelo ex-presidente do Banco Central americano Alan Greenspan. O país havia acabado de enfrentar o estouro da bolha da internet e havia entrado em recessão em março. A prática prolongada de juros baixos é citada hoje como um dos fatores na raiz da crise imobiliária que estremeceu os bancos de Wall Street em 2008.
Fonte: Jornal O Globo | Publicada em 11/09/2011
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