Não bastasse a constatação cruel para toda a geração que, após o 11 de Setembro, conheceu o medo e a paranoia, a possibilidade de que a velha tática de demonização se estenda indefinidamente preocupa analistas como Stewart Patrick, do Council on Foreign Relations. Ele cita discursos do governo Barack Obama sobre "a necessidade de lidar com Estados fraturados, as maiores ameaças à segurança em nossa era" como prova de que os EUA parecem não ter aprendido muito.
- Há poucas semanas, a secretária de Estado Hillary Clinton disse que a ação militar na Líbia se justificava para impedir que o país se transformasse numa Somália gigante - critica.
Uma ideologia, muitas al-QaedasSegundo Patrick, o impacto de movimentos jihadistas em Estados falidos como Somália, Chade, Mali, Mauritânia e mesmo o Iêmen é local. Tem pouca ou nenhuma implicação em temas como terrorismo transnacional, desenvolvimento de armas de destruição em massa, crime internacional e proliferação de doenças infecciosas. Documentos interceptados pelos EUA, aliás, revelam queixas de altos integrantes da al-Qaeda ainda na década de 90, quando a anarquia da Somália complicava operações e acesso a estruturas financeiras e de comunicação.
- Em geral, a al-Qaeda prefere atuar em Estados corruptos, mas funcionais, como o Quênia, cuja soberania incontestável a defende da interdição externa.
Assim, boa parte da preocupação com as mais conhecidas subsidiárias do que restou da rede de Bin Laden - a al-Qaeda no Magreb Islâmico (Aqim, na sigla em inglês) e a al-Qaeda na Península Arábica (Aqap) - seria um tanto exagerada.
- Elas ameaçam a população dos países que as abrigam. Trata-se de grupos que se declaram afiliados à al-Qaeda, em parte, como estratégia para se mostrar parte de um movimento global e, presumivelmente, ter acesso a recursos do movimento - explica Patrick.
Shadi Hamid, do Centro de Pesquisas Doha do Brookings Institution, vê outro desafio no combate ao terror: a prioridade. Afinal, governos ocidentais não podem exigir que o contraterrorismo esteja no topo da lista de necessidades de outras nações.- Tome os africanos como exemplo. O terror pode estar na agenda, mas certamente os recursos para o combate à Aids, à pobreza e à fome serão mais importantes que a batalha contra possíveis milicianos - destaca.
Hamid se diz convicto de que a morte do saudita Osama bin Laden foi um golpe duro à al-Qaeda, agora, acéfala. Um ponto interessante, diz, é que o jihadismo global rachou justamente devido à morte do terrorista número 1. Mas também ao fenômeno da Primavera Árabe.
De um lado, há os velhos teólogos inspirados na jihad clássica, na crença de que é preciso destruir instituições para criar Estado islâmicos, limpos da maligna influência ocidental. Do outro, com a queda de déspotas apoiados pelo Ocidente, surgem, mais fortes, os islamistas parlamentaristas, dispostos a usar votos - e não bombas - para atingir seus objetivos políticos. Como a Irmandade Muçulmana no Egito e na Síria. Ou mesmo o Hezbollah, no Líbano:
- Quando a al-Qaeda for entendida como uma ideia, e não como uma entidade, poderemos criar estratégias para combatê-la. Felizmente, os partidários dessa ideia perderam relevância e a legitimidade no mundo muçulmano. Mas um dos próximos desafios será fazer o Ocidente entender e aceitar a presença de grupos islâmicos na democracia - adverte Hamid.
Paquistão, a maior derrotaA proliferação do extremismo não para. Resta ao Ocidente descobrir fórmulas para impedir que se transforme em terrorismo. Aí, lembra Stewart Patrick, é preciso ficar atento ao que ocorre no Paquistão - para ele, a maior derrota americana:
- O país, assim como o Iêmen, é um santuário para o terror não por ser um Estado fraco, mas porque seu governo não está disposto a combater esses militantes, necessários para atender outras necessidades internas. Acreditar que podíamos ter Islamabad como aliado verdadeiro foi um erro. Além disso, a al-Qaeda encontra abrigo na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão devido à população pashtun, ao sunismo severo praticado na região e ao dogma do pashtunwali, que determina hospitalidade a estrangeiros.
Das guerras do Iraque e do Afeganistão, restaram duas lições: a primeira, de que é impossível fabricar - ou pior, impor - a democracia em sociedades islâmicas marcadas por séculos de cicatrizes de conflitos sectários, étnicos e tribais. E, talvez a mais importante, a de que tornar essa democratização o foco principal das ações contraterroristas apenas renova um contraproducente senso de anti-Ocidentalismo. Caberá à História julgar um caminho coerente para os próximos dez anos.
- Terrorismo é algo com o qual temos que aprender a coniver. Nunca vamos poder eliminá-lo - admite Shadi Hamid.
Voando lado a lado com os terroristas do 11/9Rudi Dekkers costuma dizer que o 11 de Setembro marcou sua ida, literalmente, do céu para o inferno. O holandês de 55 anos, desde 1993 nos EUA, viu sua vida desmoronar quando descobriu que Mohamed Atta e Marwan al-Shehhi, seus ex-alunos na escola de pilotagem Huffman Aviation, eram os sequestradores que lançaram dois aviões contra as Torres Gêmeas.
- Quando, na madrugada do dia 12, o FBI entrou no meu escritório confiscando tudo, eu senti como se estivesse fora do meu próprio corpo - disse Dekkers ao GLOBO. - Eu estava totalmente em choque.
Dekkers treinou Atta e Shehhi por seis meses na Flórida e jura que não tinha como saber que os dois eram terroristas. Testemunhou no Congresso americano e foi inocentado pela Justiça da Flórida, mas, dez anos depois, ainda é visto por muitos com desconfiança.
Depois dos ataques, recusou-se a treinar muçulmanos e começou a receber ameaças. Até hoje acredita ter sido vítima de sabotagem num acidente de helicóptero em 2002. Perdeu casa, teve que vender o negócio e buscar outro emprego. Pelo estresse, conta, tem problemas de saúde e perdeu a mulher, também holandesa, que decidiu voltar para a terra natal.
Agora, está lançando uma autobiografia nos EUA: "Guilty by association: the untold story of Rudi Dekkers" (Culpado por associação: a história não contada de Rudi Dekkers).
- Eu era o dono de uma das maiores escolas de aviação dos EUA, com um patrimônio de US$ 12 milhões, e hoje não tenho nada. Eu fui do sonho americano ao inferno - afirma.
Fonte: Jornal O Globo | Publicada em 11/09/2011
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