O crescente investimento externo da China e a presença cada vez mais forte de suas empresas em países em desenvolvimento começam a expor dificuldades culturais geradas pelo modelo de gestão empresarial implantado em terras africanas e latino-americanas.
O semanário “The Economist” recentemente publicou trabalho mostrando o que está acontecendo na África. A China é atualmente o maior parceiro dos países africanos e é o destino de mais de um terço do petróleo produzido naquele continente. As empresas chinesas, privadas e públicas, estão investindo pesadamente na produção agrícola, de manufaturas e no varejo. Recursos chineses são responsáveis pela construção de numerosas escolas e hospitais e edifícios públicos. Seu comércio superou US$120 bilhões em 2010. Entre 2005 e 2010, estima-se que 14% dos investimentos chineses no exterior foram canalizados para a África sub-sahárica e grande parte dos empréstimos está condicionada a compras de produtos chineses.
A China goza, até aqui, de uma vantagem em relação aos países desenvolvidos que investiram nos países em desenvolvimentos nos últimos duzentos anos: sua atividade não despertava hostilidade. Sua lua de mel, no entanto, está chegando ao fim.
Uma das explicações para essa mudança de atitude reside no fato de que os chineses que saem para trabalhar no exterior replicam métodos de negócios que pouco levam em conta os direitos dos trabalhadores, relegando a um segundo plano as regulamentações e os costumes locais. Junto com o aumento do comércio, do investimento, do emprego e da qualificação, os chineses também estão trazendo práticas desleais e uma cultura do vale tudo, inclusive a da violência física, nas relações de trabalho.
As queixas são generalizadas: o país destrói os parques e florestas na busca de recursos minerais e agrícolas e rotineiramente desrespeita regras rudimentares de segurança no trabalho. Estradas e hospitais construídos pelos chineses são mal acabados, inclusive porque as companhias construtoras subornam funcionários públicos locais e inspetores de obras. A corrupção, um problema crônico na África, vem sendo agravada pelos métodos seguidos pelos chineses. A China passou a ser vista como um predador exaurindo os recursos minerais africanos. Evidentemente a situação no continente africano nada tem a ver com o que se passa na America Latina.
O anúncio de grandes investimentos e a criação de grande numero de empregos, como o da companhia Foxcomm, e a possibilidade do aumento de executivos e trabalhadores chineses, sobretudo em obras de infraestrutura, como aconteceu na tentativa frustrada de trazer operários chineses para trabalhar no porto de Tubarão, e as iniciativas do governo de Pequim de casar investimentos em terras para a produção de produtos agrícolas com a vinda de agricultores do interior da China exigem um cuidadoso acompanhamento do Itamaraty e dos setores de imigração.
De acordo com informações veiculadas pela “Folha de S.Paulo”, 42% dos funcionários brasileiros abandonam seus empregos em empresas chinesas no país em um ano. Longas jornadas de trabalho, horas extras frequentes, teleconferências de madrugada, vigilância constante dos chefes, metas de produção irrealistas e inegociáveis são algumas das características da gestão empresarial chinesa. Embora reflitam hábitos e práticas existentes na China, o choque cultural tem se traduzido na redução do tempo de permanência dos trabalhadores na empresa. Os chineses não abrem mão de algumas de suas características culturais, entre elas, a administração extremamente centralizada, jornadas longas de trabalho e a falta de confiança. A chamada dupla estrutura de cargos também incomoda os executivos brasileiros. Em algumas empresas chinesas há um executivo chinês exercendo a mesma função de um brasileiro, o que é visto como um sinal de desconfiança.
Enquanto ainda é tempo, o entendimento entre a Fiesp e as centrais sindicais, concentrado na questão da competitividade da empresa brasileira, poderia também voltar-se para essa delicada questão.
Fonte: Jornal O Globo | Publicada em 10/08/2011
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