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28-09-2011

Ajuda emergente

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MATÉRIA REFERENTE AO TERCEIRO TRIMESTRE DE 2011
Gabriela Valente, Geralda Doca e Tatiana Farah

Brasil quer propor à Europa como enfrentar crise, com incentivo à indústria. País pode comprar títulos em euro

Em meio à crise que abate Estados Unidos e Europa, o Brasil quer "exportar" sua experiência na turbulência de 2008 e deve sugerir medidas de incentivo fiscal às indústrias europeias na próxima semana, na reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington. Além disso, o país e os outros emergentes do Brics (grupo formado também por Rússia, Índia, China e África do Sul) estudam comprar títulos em euros. Nos bastidores, fontes da área econômica revelaram que a situação na Europa preocupa o governo brasileiro, que avalia que os emergentes devem agir logo, já que, afirmam, a quebra de algum país acarretaria em um problema muito mais grave do que o calote de um simples banco.

Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a política fiscal tem de ser o principal instrumento para combater a crise. Ele defenderá, na reunião do FMI, que os Brics usem suas reservas para comprar títulos europeus de boa qualidade. Ele vai discutir o assunto em uma reunião com a diretora-gerente do Fundo, Christine Lagarde, e em outra com o secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner. Ontem pela manhã, enquanto um grupo de técnicos da Fazenda e do Banco Central discutia o assunto, Mantega confirmou que o socorro à região está em estudo:

- Os Brics vão se reunir na semana que vem e nós vamos discutir o que fazer para ajudar a União Europeia a sair dessa situação.

A presidente Dilma Rousseff também deu sua receita para enfrentar a crise: mais consumo, produção e parcerias entre governos e empresas. No lançamento da pedra fundamental do Estaleiro Rio Tietê, em Araçatuba, no interior paulista, ela defendeu que o Brasil tem gastado dinheiro para se fortalecer durante a turbulência internacional. No auge da crise de 2009, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva também apelou para que os brasileiros não deixassem de consumir.

- A melhor forma de resistir à crise é não ficar de braços cruzados, não nos atemorizar, mas continuar consumindo, produzindo, investindo em infraestrutura, plantando, colhendo e assegurando às nossas indústrias o seu componente nacional - disse Dilma ao falar da importância do estaleiro e da modernização da Hidrovia Tietê Paraná. - Estamos dando um passo para tornar nosso país mais forte para enfrentar essa crise internacional, pela qual não somos responsáveis e a qual temos todas as condições de enfrentar.

Dilma anunciou a liberação de R$900 milhões do PAC 2 para a modernização da hidrovia, que ainda terá R$600 milhões do governo estadual.

- Enquanto eles discutem como fica a crise da dívida de seus bancos, nós estamos aqui gastando o nosso dinheiro em parcerias público-privadas, em parcerias entre o governo federal e o governo estadual para criar desenvolvimento, emprego e renda para nosso país - disse.

Papéis da Itália registram taxa recorde em leilão

Todas as discussões de compra de títulos em euros e de propostas para a reunião do FMI ainda estão em fase preliminar, segundo uma fonte da área econômica que se encontra na Basileia. O Brasil tem cerca de US$350 bilhões em reservas, a maioria aplicada em títulos públicos americanos que, por serem considerados seguros, têm baixo rendimento.

- A segurança vem em primeiro lugar, a gente não busca rentabilidade - afirmou o diretor de Política Monetária do Banco Central, Aldo Mendes, em audiência no Congresso.

De acordo com ele, em segundo lugar no critério de aplicação das reservas está a liquidez. Ou seja, o Brasil só aplica os dólares que recebe se for em um ativo do qual possa se desfazer rapidamente no caso de uma turbulência mais forte no cenário global.

A Itália pagou ontem taxa recorde por seus bônus. O Tesouro vendeu 6,5 bilhões, sendo 3,9 bilhões em papéis de cinco anos, com rendimento de 5,6% - o maior desde a introdução do euro, há uma década. Além disso, a procura ficou abaixo do esperado. A proporção entre oferta e demanda ficou em 1,28, bem abaixo do 1,93 registrado na emissão anterior.

Na segunda-feira, circularam rumores de que a China compraria bônus italianos. Uma fonte do governo confirmou ter havido uma reunião, na semana passada, com o presidente da China Investment Corp. (CIC), Lou Jiwei, e representantes do Escritório Estatal de Câmbio da China. Depois do leilão, uma fonte disse ao diário de negócios "Wall Street Journal" que, na verdade, discutiu-se o interesse da CIC em papéis de empresas italianas, não em bônus do governo.

Para analistas, é pouco provável que a China compre títulos em escala suficiente para ajudar qualquer economia. "A China é um país pobre com renda per capita de apenas US$4 mil. Pensar que ela vá socorrer países com renda per capita de US$40 mil é ridículo", disse o economista chinês Yu Yongding ao "New York Times".

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, conseguiu um feito inusitado: unir economistas, que, tradicionalmente, costumam ficar em campos opostos. O plano de levar o Brasil a discutir com outros países que fazem parte dos Brics uma ajuda à zona do euro aproximou ortodoxos e heterodoxos contra a ideia. É unânime que Mantega estaria fazendo jogo de cena ao divulgar a proposta, concordam Monica Baumgarten de Bolle e José Luís Oreiro. Ela, ortodoxa assumida, é da Galanto Consultoria e trabalhou no Fundo Monetário Internacional (FMI), na época de Timothy Geithner, que hoje é secretário do Tesouro americano. Ele, heterodoxo de carterinha, preside a Associação Keynesiana Brasileira e dá aulas na Universidade de Brasília. (Liana Melo)

‘Temor de novo conflito deve fortalecer o primeiro-ministro

O professor israelense Shmuel Bar, diretor do Instituto para Política e Estratégia do prestigiado Centro Interdisciplinar Hertzleyia, afirmou ao GLOBO que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, precisa se preocupar mais com a manifestação social que sacode o país há dois meses caso queira manter- se no poder. Segundo ele, as ameaças externas podem até fortalecer sua imagem entre a população do país, temerosa em relação a um novo conflito regional.

O GLOBO: O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, enfrenta pressões internas e externas. Qual delas deve ser combatida primeiro?
SHMUEL BAR: As pressões externas são mais perigosas para o Estado de Israel. Mas as pressões internas são mais perigosas para o governo Netanyahu. Quer dizer, as manifestações sociais podem derrubar o governo atual, enquanto as questões externas podem levar apenas a um prejuízo estratégico para Israel, independentemente de quem seja o primeiro-ministro. Caso haja uma guerra ou um conflito maior entre Israel e os vizinhos, pode ser até mesmo que Netanyahu se fortaleça em meio ao temor interno, que sempre causa uma espécie de união nacional.

Os desafios da política externa e da política interna se interligam?
BAR: Acho que são desafios bem distintos. A pressão americana, dos palestinos, dos turcos, a ameaça do programa nuclear iranianoo latentes, não creio que têm a ver com as pressões internas pelo custo de vida. Alguém acha que as demandas dos manifestantes sociais afetam as decisões de Netanyahu diante do programa nuclear do Irã? Se a frota turca decidir ameaçar navios israelenses no Mar Mediterrâneo, isso vai afetar o preço do queijo cottage? Não acho.

Mas caso o premier tenha que escolher em qual dos problemas focar, em qual deles investir mais verbas...
BAR: Não creio que chegamos ainda ao ponto em que Netanyahu precise escolher entre dar dinheiro para a segurança ou para os serviços sociais.

Quanto ao relacionamento com a Turquia, Israel tem como consertar o que aconteceu?
BAR: Não creio. Acho que o governo turco tem agenda própria, que é acumular força para se tornar um líder regional. Talvez Israel pudesse ter administrado essa crise de maneira mais inteligente, mas não acho que o resultado seria diferente.

O senhor considera que setembro será um mês decisivo para o país?
BAR: Não será tão traumático como se pensa. Acho que o presidente palestino Mahmoud Abbas pode até declarar a independência, mas daí a ter um país independente é muita estrada. Ele vai, por exemplo, formar um Exército, o que é vetado pelo Acordo de Oslo? E se ele decidir suspender esse acordo, como vai sobreviver sem o dinheiro de impostos cobrado por Israel e com o qual paga seus funcionários públicos?

Será que ele desistirá por causa disso?
BAR: Não vai desistir. Os palestinos vão buscar o reconhecimento unilateral na ONU de qualquer maneira, mesmo que isso os prejudique, na prática. Porque entre eles há a tendência de preferir passos declaratórios, menos práticos e mais simbólicos.

Fonte: Jornal O Globo | Publicada em 14/09/2011
Informação em Destaque: Texto sublinhado e negrito
Esta notícia foi reproduzida para fins didáticos

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Última modificação em Qua, 28 de Setembro de 2011 22:00
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