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28-09-2011

‘Não foi a maior história da nossa era’

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MATÉRIA REFERENTE AO TERCEIRO TRIMESTRE DE 2011
Historiador britânico destaca a ascensão da Ásia e constata que a maior potência militar não conseguiu vencer as guerras

Renata Summa - Para o historiador britânico Timothy Garton Ash, a década que seguiu o 11 de Setembro marcou um (importante) desvio na História. Mas a estrada principal da história do nosso tempo, por assim dizer, será marcada pelo deslocamento de poder do Ocidente ao Oriente. Isso não significa que os atentados não tenham deixado um legado desafiador, como demonstra em seu novo livro, “Os fatos são subversivos: escritos políticos de uma década sem nome”, laado pela Companhia das Letras. Em entrevista ao GLOBO por telefone da Califórnia, o professor da Universidade de Oxford diz que o custo da Guerra ao Terror foi alto demais para poucos resultados, e não hesita em afirmar que década foi perdida para os EUA.

O GLOBO: Em 2001, falou-se dos ataques como um novo marco na História, assim como a queda do Muro de Berlim. O senhor ainda concorda com essa visão?

TIMOTHY GARTON ASH: O período que vai entre o 9 de novembro de 1989 (a queda do Muro de Berlim, ou 9/11 no estilo europeu de escrever as datas) e o 11 de setembro de 2011 (ou 9/11 na forma americana), é um momento muito importante. Mas estou convencido de que o primeiro 9/11 foi mais marcante do que o segundo. Apesar de ter sido um evento de importância extraordinária, não acho que o 11 de Setembro represente o início de uma nova grande era. Não acredito que nossa época será marcada pela luta contra o terrorismo. Esta ameaça foi reduzida pelo que já foi feito contra ela, mas também pela Primavera Árabe. A grande história do nosso tempo não será essa, e sim a ascensão da Ásia, além do deslocamento do poder do Ocidente ao Oriente. Esta, sim, é a grande história do nosso tempo,
que define a política de hoje.

● Dez anos após o 11 de Setembro, o senhor considera que o mundo é um lugar mais seguro ou mais perigoso?

GARTON ASH: O mundo sempre foi um lugar perigoso, e sempre será. Mas o risco ligado ao terrorismo será reduzido. Há outros, no entanto. Estados nucleares, aquecimento global, superpopulação, falta d’água... Além disso, como falei, estamos num período de deslocamento de poder. Na História, podemos observar que costumam ser períodos de riscos crescentes, e estou certo de que este também será.

● Como você avaliaria os anos de guerra contra o terror?

GARTON ASH: O governo Bush cometeu grandes erros. Acredito que a invasão do Afeganistão tenha sido necessária, mas poderíamos ter saído de lá mais cedo. O Iraque foi um erro. Além
do custo humano altíssimo, houve um custo financeiro altíssimo. US$ 4 trilhões... dá para imaginar o que poderia ter sido feito com esse dinheiro?

● O que devemos esperar do Iraque e do Afeganistão?

GARTON ASH: Temos a maior potência militar do mundo nesses dois países, mas em nenhum deles a guerra acabará em vitória. Houve uma incrível perda de vidas humanas, mais de sete milhões de refugiados de Afeganistão, Paquistão e Iraque. E o Iraque, hoje, não é um país livre. Não tenho nenhuma hesitação em dizer que o mundo seria um lugar melhor hoje se EUA e Reino Unido não tivessem ido ao Iraque. Mesmo no Afeganistão, o que teremos conquistado será muito modesto. Além disso, é o Paquistão o maior desafio hoje. Talvez no futuro vamos perceber que Obama deveria ter se concentrado no Paquistão.

● Mas, nesse caso, haveria um fim? Um dia Afeganistão, depois Paquistão...

GARTON ASH: Em geral, os problemas não são resolvidos, eles são ultrapassados por outros
problemas. Estou aqui nos EUA, e o Iraque não é mencionado nenhuma vez na TV. Há dois anos, só se falava nisso. Talvez os problemas não sejam resolvidos, mas eles acabam desaparecendo da mídia.

● Diria que foi uma década perdida para os EUA?

GARTON ASH: No meu livro, digo exatamente isso. Foi uma década perdida. Se os EUA soubessem no início da década para onde estávamos indo, talvez tivessem gastado esses trilhões em educação, desenvolvimento, e estariam em situação melhor.

Ainda não há uma definição internacional do terrorismo...

GARTON ASH: Terrorismo deveria ser usado no plural: terrorismos. Matar civis é errado, mas há uma diferença entre as mortes causadas pelo movimento antiapartheid liderado por Mandela, por exemplo, e o terrorismo internacional. No caso do terrorismo nacional, se você resolver o problema político, o terror pode acabar. No caso de Bin Laden, não há nada a fazer. Você tem que lutar contra ele.

● Você era um crítico da política de George W. Bush para o Oriente Médio. Como avalia Obama nesse quesito?

GARTON ASH: Bom, há um comentário famoso em Washington: “Na Primavera Árabe, Obama
tem liderado por trás.” Há uma ponta de verdade nisso. Ele não deu uma grande prioridade à democracia na região, mas as pessoas de lá deram. Com o tempo, ele melhorou, e acho que
tem feito um ótimo trabalho em empurrar a solução de dois Estados para Israel e Palestina.

● Para o senhor, a integração de imigrantes muçulmanos nos EUA e na Europa é um dos principais fatores para prevenir ataques terroristas nesses países. Como estão lidando com isso?

GARTON ASH: Esse é um problema muito maior para a Europa, que tem uma população envelhecendo dramaticamente enquanto, do outro lado do Mediterrâneo, há uma população constituída em sua maioria por jovens. Já nos EUA, esse é um problema menor, pois os muçulmanos são mais integrados, educados. Para nós, na Europa, é um grande desafio, e estamos lidando muito mal com isso.

A Primavera Árabe pode resultar num fortalecimento de islamistas e tornar a região mais radical ou é o contrário?

GARTON ASH: Esse é o episódio mais esperançoso do século. Devemos acolhê-lo sem hesitação. Mesmo se o Islã político subir ao poder, teremos que aceitálo. Claro que falo num tipo de islamismo moderado, ao estilo turco. Se radicais começarem a colocar bombas, será diferente.

● Tony Blair chegou a dizer que a Primavera Árabe justificou, a posteriori, a invasão ao Iraque, mostrando que as pessoas queriam mudaas...

GARTON ASH: É completamente diferente. De um lado temos um movimento espontâneo, vindo de baixo. Do outro, o que os neoconservadores viam como democracia no Oriente Médio. O que vemos hoje na Síria, por exemplo, é uma resistência civil impressionante. Essa população que está na rua tem menos de 30 anos. No final, se eles ficaram desapontados após terem arriscado suas vidas, vão deixar o país. E vão aonde? A Europa está tão obcecada com a crise do euro que não está em condições de dar uma resposta à altura. Mas é ela que será afetada se der errado. Como num ciclo vicioso.

Sem
cura rápida para o terror


Há muitas coisas que eu recordo sobre 11 de setembro de 2001. Como quase todos os nova-iorquinos naquele dia, eu lembro do ar fresco e do céu azul sem nuvem alguma. Lembro de ir para o trabalho, pensando no dia atribulado que teria pela frente.

Para mim, aquele dia era somente mais um dia. Um outro dia de trabalho como ativista de direitos humanos. E, então, o primeiro avião cortou o céu azul de Nova York, voando muito perto, muito baixo, muito rápido e muito barulhento.

Ao atravessar a Madison Avenue a caminho do escritório no Empire State Building, eu não podia ainda compreender o que aquele ruidoso jato sobre mim significaria para o meu trabalho na década seguinte.

Muitos, talvez a maioria, dos nova-iorquinos se uniram naquele momento — passando por cima de todas as nossas costumeiras diferenças — apoiando uns aos outros em nosso pesar. Sentimos a perda, a desorientação, o desejo de retornar a antes de o mundo parecer prestes a desmoronar.

Eu caminhei pelas ruas de Nova York naquele dia, enquanto pessoas buscavam aqueles que desapareceram; enquanto tentavam entender; enquanto o choque se transformava em tristeza e raiva, e de novo em tristeza.

O que nós não sabíamos era que as nossas perdas, a nossa revolta e a nossa tristeza se transformariam na justificativa para um conceito fundamentalmente falho — a guerra global ao terror — levando a um dano imensurável que desonrou o pesar que sentimos naquele dia e que continuamos a sentir dez anos depois.

Governos começaram a discutir como reforçar suas leis para combater o terrorismo, explodindo princípios da lei humanitária internacional — princípios básicos e essenciais que protegem a todos nós de ser torturados. Proteções legais fundamentais foram desmanteladas, explorando o medo resultante — medo que políticos agiram rapidamente para identificar e promover.

E, então, em seu décimo aniversário, eu escrevoo apenas sobre as recordações daquele dia, mas sobre como governos usaram aqueles acontecimentos terríveis para explorar a dor e a revolta com o objetivo de minar valores fundamentais, promover o medo e dividir o mundo entre “eles e nós”.

Quando os Estados Unidos decidiram que a tortura era justificável, eles se voltaram para o aliado Egito, sabendo que as forças de segurança egípcias se sobressaíam nesse campo. Quando o governo chinês quis justificar a repressão de Uighers em Xinjiang, os acontecimentos do 11 de Setembro repentinamente se encaixaram. Governos europeus apoiaram rendições sabendo dos riscos de tortura para aqueles que se rendiam. O oportunismo político cresceu através do globo no mundo pós-11 de Setembro.

Amina Janjua, do Paquistão, é uma mulher que conhece bem as consequências dessas políticas mal concebidas. Acredita-se que seu marido, Masood, esteja sendo mantido preso pelo governo desde que desapareceu em 2005, quando viajava de ônibus para Peshawar. Ele está entre centenas de pessoas que desapareceram, e que seriam mantidas em custódia desde que o Paquistão aderiu, em 2001, à guerra ao terror liderada pelos EUA.

Nesse meio tempo, em Tanzânia, Índia, Espanha, Indonésia, Paquistão, Filipinas, Reino Unido, Quênia, Somália, Iraque, Noruega, Marrocos, aqueles que apoiam o terrorismo continuaram a semear o caos ao promover o ódio, matar civis e glorificar a violência.

É clichê dizer que as ações do governo dos Estados Unidos se tornaram ferramentas poderosas de recrutamento para organizações como a al-Qaeda. Se é verdade ou não, a questão que devemos confrontar é: os governos ao longo do mundo responderam a esse ataque à dignidade humana promovendo a dignidade e igualdade de todos? Ou eles definiram um mapa do mundo em que os respeitos à dignidade humana e à vida dependem da nacionalidade de alguém? Da religião? Da classe? Do nome? Do status imigratório? Da cor da pele?

Esses governos na coalizão lutando no Afeganistão tentaram ganhar credibilidade alegando que seu objetivo — em parte — era promover os direitos da mulher no país. Mas à medida que a guerra se arrasta, o desejo de negociar com o Talibã emerge, representando um risco real de que os direitos da mulher se tornem nada além de uma peça de barganha.

o há nada simples em combater o terrorismo. Nem em desafiar a repressão de governos que reduzem pessoas a rótulos que determinam se seus direitos serão respeitados.

O terrorismoo acabará com a construção de alianças com regimes que governam pelo medo e pela repressão. Isso é contraproducente e demonstra uma cruel indiferença com os direitos humanos de quem sofre com a repressão.

De forma correta, nós nos chocamos com a perda de vidas para o terror em e desde o 11 de Setembro. Deveríamos também nos chocar com as perdas de liberdades e direitos em nome do terrorismo e do contraterrorismo nos últimos dez anos.

A
moratória da Grécia é iminente

O que acha da proposta de os Brics ajudarem a Europa?

MONICA DE BOLLE: Não somos a China, que tem pouco mais de US$3 trilhões em reservas. Além disso, os chineses têm tradição de alimentar a poupaa interna.

Existe solução para a crise do euro?

MONICA: A situação da Europa é delicada e a China está criando uma rede de seguraa para evitar um colapso. São interesses geopolíticos que estão levando a China a socorrer a Europa. O país asiático tem interesse nas matérias-primas da África e precisa ter boa relação com os países europeus, que ainda têm histórico de relacionamento com o continente africano.

Com o problema chegando à Itália, o que isso muda no perfil da crise?

MONICA:Ao atingir o núcleo da zona do euro, a crise muda de magnitude. Uma eventual saída da Grécia, por exemplo, pode até desorganizar a região, mas não acaba com o Euro. Já a Itália...

A senhora acha que o Banco Central Europeu (BCE) tem condições de salvar a Itália?

MONICA: O BCE tem poder de fogo ilimitado de emitir moeda, mas o problema é político. De maio do ano passado até agora, o banco já comprou 140 bilhões em títulos. Metade deste volume foi adquirido recentemente para salvar países como a Espanha e Itália.

Existe um risco de contaminação?

MONICA: O risco sempre existe e é enorme. A região agora está toda contaminada.

E a Grécia?

MONICA: É uma questão de semanas para a Grécia declarar moratória. Não é à toa que o secretário do Tesouro americano vai participar da reunião dos ministros das Finaas da zona do Euro. A Grécia hoje é a Argentina de 2001/2002, quando decretou moratória.

É um momento trágico no Ocidente

O
que acha da proposta de os Brics ajudarem a Europa?

JOSÉ LUIS OREIRO: O ministro Mantega está jogando para a plateia. Não cabe a Brasil, Rússia, China e Índia resolverem um problema que é exclusivamente dos europeus.

Existe solução para a crise do euro?

OREIRO: A Europa precisa de demanda externa e os chineses, especialmente, não estão nem um pouco interessados em reduzir seu saldo comercial, importando mais produtos da Europa. Outro remédio seria estimular a demanda doméstica. E, neste caso, os Brics não têm a menor condição de ajudar.

Com o problema chegando à Itália, o que muda no perfil da crise?

OREIRO: Estamos chegando perto de um momento trágico na história do Ocidente. Ninguém sabe exatamente qual será o impacto da saída da Grécia e agora a crise chegou à Itália. O problema é que falta liderança política para gerenciar esta crise. Nem Angela Merkel (Alemanha) nem Nicolas Sarkozy (França) são lideranças à altura.

O senhor acha que o Banco Central Europeu (BCE) tem condições de salvar a Itália?

OREIRO: O ideal seria a monetização de parte da dívida dos países da zona do euro (resgate de títulos em troca de dinheiro). Mas, para isso, seria preciso mudar o estatuto do banco. Está cada vez mais difícil de encontrar uma resposta fiscal para a crise. Seria preciso aumentar os gastos e reduzir os impostos, mas isso hoje é impossível.

Existe de risco de contágio?

OREIRO:Claro que existe. E o pior é que a desconfiança acaba gerando ainda mais turbulência no mercado.


Fonte: Jornal O Globo | Publicada em 12/09/2011
Informação em Destaque: Texto sublinhado e negrito
Esta notícia foi reproduzida para fins didáticos

Todos os direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A.

Última modificação em Qua, 28 de Setembro de 2011 21:58
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6 comentários

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