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Campo a descoberto

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16 de fevereiro de 2008

Campo a descoberto

Com a retomada das grandes obras, mercado de trabalho precisa, agora, de arqueólogos

Da Redação

O crescimento do país e, conseqüentemente, a retomada da execução de grandes obras revelam mais uma carência do mercado de trabalho nacional, além da falta de engenheiros e especialistas em petróleo, entre outros. A Resolução 001 do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), de 1986, sempre exigiu, na elaboração do estudo de impacto ambiental, um levantamento arqueológico da área afetada. Acontece que, desde então, não eram feitas, ao mesmo tempo, tantas obras de infra-estrutura (como estradas, refinarias, linhas de transmissão etc.), empreendimentos que dependem desse levantamento para serem licenciados. Resultado? Faltam arqueólogos para fazer esse diagnóstico.

Só quatro cursos em todo o país

O problema já foi sentido no Rio pelo superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Carlos Fernando de Andrade. O órgão fiscaliza a execução desse trabalho para garantir a preservação, já que o subsolo pertence à União e todos os sítios arqueológicos são considerados bens culturais.

— A realização de obras de grande porte identificou um nicho de mercado — diz Andrade.

Enquanto não havia canteiros espalhados pelo país, o próprio Iphan focava o seu trabalho na preservação de bens arquitetônicos.

Hoje, o instituto se vê diante de uma nova realidade. Mas o número de profissionais da casa ainda é insuficiente para dar conta da demanda. São menos de 30 no país inteiro para gerir mais de 20 mil sítios.

Até 2005, eram apenas sete. Nem todos, porém, são graduados. A profissão não é regulamentada, e, legalmente, a função pode ser exercida por formados em qualquer área. Geralmente, quem se especializa na carreira vem de setores afins, como geologia, biologia, arquitetura e história. Hoje, apenas quatro universidades oferecem o curso de graduação — sendo que a primeira turma se forma este ano. Outras duas abrem cursos a partir deste ano, informa o Ministério da Educação.

A maioria dos arqueólogos em atividade se formou ou fez pós-graduação na Universidade Estácio de Sá — que fechou o curso há quatro anos. No Rio, atualmente, só existe um curso de especialização, o da UFRJ, no Museu Nacional. Mas os arqueólogos graduados defendem seu mercado: dizem que a formação fica prejudicada e que o resultado final não tem a mesma qualidade.

— Já fui chamada para consertar o trabalho de outras pessoas. Quem não é formado deve trabalhar muitos anos ao lado de um profissional gabaritado para não fazer besteira, porque um arqueólogo tem formação em várias áreas — explica Jacqueline Amorim, que presta consultoria para a Petrobras.

Jacqueline coordena um dos três grupos que estão fazendo o levantamento arqueológico da área onde será construído o Complexo Petroquímico do Rio (Comperj), no distrito de Porto das Caixas, em Itaboraí.

A análise de campo começou no fim do ano passado. Até agora, já foram descobertos mais de 20 sítios em 15 quilômetros quadrados, informa a pesquisadora Débora da Rocha, coordenadora do maior campo.

O trabalho do grupo de Jacqueline tem sido mais fácil de executar: estão ali, na área da escavação, as ruínas do que seria a primeira vila de Itaboraí. As estruturas existentes — duas igrejas e uma torre — ainda não foram datadas, mas remontam ao século XVI. O local teria sido abandonado após um surto de febre amarela.

Além do Comperj, há outros 24 projetos no estado sendo monitorados pelo Iphan. Rosana Najjar é responsável pelo acompanhamento de todos eles e ainda auxilia na fiscalização em Salvador.

— Já éramos poucos, antes de a demanda surgir. O governo precisa pensar, urgentemente, nessa formação.

Fonte:  JORNAL O GLOBO

Última modificação em Dom, 20 de Abril de 2008 11:56
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