 16 de
março de 2008
Antes de
partir |
Martha Medeiros · Antes de partir Um filme cujos protagonistas são Jack Nicholson e Morgan Freeman, com diálogos bem
construídos e um humor inteligente (mesmo tratando de um assunto difícil como a finitude da vida)
já entra em cartaz com vantagem, mesmo que o roteiro não seja lá muito surpreendente.
Antes de Partir não é mesmo surpreendente, mas isso também pode ser uma coisa boa.
Ficamos sempre correndo atrás de fórmulas novas quando deveríamos nos dedicar mais a
reforçar certas verdades. E a verdade do filme, se pudesse ser resumida numa frase, seria: aproveite o tempo
que lhe resta. Nada que você já não tenha escutado mil vezes. Nicholson e Freeman
interpretam dois sessentões que descobrem estar com uma doença terminal. Os prognósticos
apontam seis meses de vida para cada um, no máximo um ano. E agora? Esperar a extrema-unção
numa cama de hospital ou buscar a extrema excitação? Sem piscar, eles aventuram-se pelo
mundo praticando esportes radicais, conhecendo lugares exóticos, desfrutando todos os prazeres de uma vida
bem vivida - claro que um deles é milionário e banca tudo, detalhe que nos falta na hora de pensar em
fazer o mesmo. Você não pensa em fazer o mesmo? Você, eu e mais 6 bilhões
de homens e mulheres também estamos com a sentença decretada, só não sabemos o dia e a
hora. Está certo que é morbidez pensar sobre isso quando se é muito moço, mas
alcançando uma certa maturidade, já dá pra parar de se iludir com a vida eterna, amém.
Com dinheiro ou sem dinheiro, faça valer a sua passagem por aqui. Não sei se você percebeu, mas
viver é nossa única opção real. Antes de nascermos, era o nada. Depois, virá
mais uma infinidade de nada. Essa merrequinha de tempo entre dois nadas é um presentaço. Não
seja maluco de desperdiçar. Ok, quantos de nós podem sair amanhã para um
safári na África, para um tour pelas pirâmides do Egito, para um jantar num restaurante cinco
estrelas na França? Ou teria coragem de saltar de pára-quedas e pisar fundo num carro de corrida numa
pista em Indianápolis? Se não temos grana nem dublês, então que a gente se divirta com
outro tipo de emoção, que o filme, aliás, também recomenda.
Reconheçamos o básico: uma vida sem amigos é uma vida vazia. O mundo é muito maior que
a sala e a cozinha do nosso apartamento. A arte proporciona um sem-número de viagens essenciais para o
espírito. Amar é disparado a coisa mais importante que existe. Que mais? Desmediocrize
sua vida. Procure seus "desaparecidos", resgate seus afetos. Aprenda com quem tiver algo a ensinar, e
ensine algo àqueles que estão engessados em suas teses de certo e errado. Troque experiências,
troque risadas, troque carícias. Não é preciso chegar num momento limite para se dar conta
disso. O enfrentamento das pequenas mortes que nos acontecem em vida já é o empurrão
necessário. Morremos um pouco todos os dias, e todos os dias devemos procurar um final bonito antes de
partir. Fonte: JORNAL O GLOBO |