Cesar Baima
Desde o início da conquista espacial, nos anos 50, a Humanidade vem acumulando toneladas de lixo na baixa órbita da Terra. E, assim como aqui na superfície, essa poluição toda causa problemas. São restos de naves, foguetes e satélites que transformam as cercanias do planeta em um verdadeiro campo minado para astronautas e equipamentos responsáveis, entre outros, pelo monitoramento do clima e as comunicações internacionais. Na semana que marca o último lançamento do Atlantis — o derradeiro entre os integrantes do grupo das primeiras e únicas naves reutilizáveis, os ônibus espaciais americanos —, surgiu um novo projeto para enfrentar a questão. Ontem, a corporação aeroespacial russa Energia anunciou que vai construir uma nave que pode carregar os primeiros “garis espaciais”, informou o jornal espanhol “El Mundo”.
Embora o objetivo principal do projeto russo seja fazer a manutenção de satélites e outros equipamentos em órbita, ele também poderia ser usado para recolher detritos ou empurrá-los rumo à atmosfera, onde queimariam sem apresentar riscos. A nave comportaria dois tripulantes, que, equipados com braços-robôs e trajes espaciais, fariam o trabalho. O primeiro lançamento de teste e sem tripulantes da nova nave russa, que pode ficar até duas semanas no espaço, está previsto para 2015, enquanto um segundo, já operacional, ocorreria em 2018.
Participação humana na coleta
Esta é a primeira vez que a abordagem do problema do lixo espacial envolve diretamente a participação humana. No ano passado, a Darpa, agência de programas estratégicos dos Estados Unidos, concordou em financiar o desenvolvimento de um “caminhão de lixo” espacial automático. Equipado com cerca de 200 redes de grandes dimensões, ele poderia recolher parte desta tralha, assim como fazem os caçadores de borboletas. A ideia é usar 12 destes “caminhões” para retirar de baixa órbita 2.465 objetos de mais de dois quilos já identificados. Os detritos poderiam voltar para a Terra com a queda controlada dos “caminhões” ou, ainda, levados para uma órbita mais alta para serem reciclados e reutilizados, servindo de matéria-prima para outras missões, como a construção de satélites e estações espaciais. Segundo informou na época a companhia responsável pelo projeto, a Star Inc, os primeiros testes aconteceriam em 2013 e a operação de limpeza poderia começar em 2017.
Além disso, a própria empresa russa Energia também já tinha anunciado no ano passado um investimento de US$2 bilhões em um projeto de uma nave-robô movida a energia nuclear, que passaria 15 anos recolhendo satélites desativados e lançando-os em direção à atmosfera terrestre. Não foram fornecidos mais detalhes sobre como isso seria feito, mas os testes estavam previstos para começar em 2020 e a operação, em 2023.
O lixo espacial ameaça cada vez mais importantes equipamentos como a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês). Na semana passada, diante da perigosa aproximação de detritos, os astronautas que estavam na ISS tiveram que se refugiar na cápsula Soyuz para se protegerem de uma eventual colisão e poderem retornar à Terra em segurança. E não é por menos: um simples parafuso com uma massa de dez gramas, viajando a uma velocidade orbital de cerca 35 mil km/h, carrega uma energia cinética de quase 473 mil joules, ou mais do que a de um carro de uma tonelada a 110 km/h. Assim, um choque poderia danificar seriamente, se não destruir, a estação espacial.
EUA rastreiam mais de 20 mil objetos
Acidentes do tipo já aconteceram. No início de 2009, um satélite da rede de telecomunicações Iridium, lançado em 1997, foi atingido em cheio por um antigo satélite russo Cosmos, enviado ao espaço em 1993. A colisão destruiu ambos e espalhou ainda mais destroços em torno da Terra, aumentando o risco de novos choques. Só os EUA rastreiam mais de 20 mil objetos em órbita da Terra, dos quais 94% são considerados destroços. A tecnologia atual, no entanto, permite seguir apenas objetos de dimensões maiores, deixando sem acompanhamento milhares, e talvez milhões, de pedaços de lixo menores, como um pequeno, e perigoso, parafuso.FUTURO AUTOMATIZADO
Exploração espacial está cada vez mais a cargo de sondas e veículos robôs
Na ficção, o pequeno Wall-E era o último representante em operação de uma série de robôs-lixeiros encarregados da limpeza de uma Terra superpoluída por séculos de exploração e desperdício dos recursos naturais. Embora na animação produzida pelo estúdio Pixar sua missão fosse em solo, ele acaba partindo para uma grande aventura entre as estrelas, tornando-se responsável por trazer a Humanidade de volta ao planeta.
Na vida real, diante dos custos, perigos e dificuldades que envolvem uma missão tripulada, os robôs também estão virando protagonistas da exploração espacial. De veículos que passeiam em Marte a sondas que estudam planetas e luas distantes, há uma tendência entre as principais agências do mundo de tocar projetos que deixam o trabalho a cargo de equipamentos automatizados.
No caso do Planeta Vermelho, por exemplo, já chegam a três os veículos-robôs postos em sua superfície apenas pela americana Nasa, com um quarto devendo partir no fim deste ano. A história, que começou com o pequeno Sojourner, em 1997, continuou nos anos 2000 com os “irmãos gêmeos” maiores Spirit e Opportunity. Agora, entre o fim de novembro e início de dezembro, a Nasa pretende lançar o Curiosity, um laboratório automatizado sobre rodas, duas vezes maior e cinco vezes mais pesado que os veículos “gêmeos” anteriores, devendo finalmente responder à questão se o clima de Marte já foi favorável ao desenvolvimento de vida microbiana e buscar evidências de que isso tenha acontecido.
Já para planetas mais distantes, como Júpiter e Saturno, a longa duração das viagens faz das sondas-robôs a única alternativa viável de exploração atualmente. Em órbita de Saturno desde 2004 em uma missão originalmente prevista para durar quatro anos, a sonda americana Cassini foi tão bem sucedida que deve continuar a estudar o planeta até 2017. E a Nasa se prepara para lançar no mês que vem a Juno, que a partir de 2017 deverá começar a revelar os mistérios das origens e evolução de Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar.
Isso sem contar, claro, com as duas sondas Voyager. Lançadas nos anos 70, elas foram as primeiras a visitar os planetas exteriores do Sistema Solar. Espera-se que até 2015 a Voyager 1 se torne o primeiro objeto fabricado pelo homem a deixar a zona de influência do Sol e ingressar no espaço interestelar.
Fonte: Jornal O Globo | Publicada em 06/07/2011
Informação em Destaque: Texto sublinhado e negrito
Esta notícia foi reproduzida para fins didáticos
Todos os direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A.





































