Estresse na gestação causa encurtamento de telômetros e envelhecimento nos filhos.
O estresse durante a gravidez pode trazer um alto custo para a futura vida do feto. Uma pesquisa da Universidade da Califórnia - Irvine revelou que jovens adultos cujas mães enfrentaram eventos traumáticos durante a gestação, como a morte ou súbita doença de um parente próximo, têm os telômetros mais curtos do que os que tiveram mães com gravidez sem grandes incidentes psicológicos.
Os telômetros são estruturas na ponta dos cromossomos, responsáveis por prevenir a perda de DNA codificante durante a divisão das células e ficam pouco menores cada vez que os cromossomos são replicados. Telômetros mais curtos já foram associados ao maior risco de desenvolvimento de diversas doenças, como diabetes, câncer e demência, e a uma menor expectativa de vida.
Os pesquisadores mediram o comprimento dos telômetros dos leucócitos - células de defesa do organismo - de um grupo de 94 estudantes alemães de 25 anos. Destes, 45 tiveram mães que passaram por grande estresse psicológico durante a gravidez, enquanto os 49 restantes serviram como grupo de controle. Além da idade semelhante, todos foram selecionados para excluir outros fatores que, segundo se sabe, podem levar ao encurtamento dos telômetros, como fumo, obesidade, complicações na gestação ou parto, peso e tamanho no nascimento, estresse durante a infância, juventude e já na fase adulta, entre outros.
Mulheres foram mais afetadas.
Os exames mostraram que os filhos das mães estressadass tinham telômeros dos leucócitos significativamente menores do que os do grupo de controle, como se suas células sanguíneas fossem, em média, três anos e meio mais velhas. O estresse durante a gravidez também atingiu com mais força os fetos do sexo feminino, com as jovens adultas apresentando um encurtamento da estrutura maior que os homens, como se fossem, em média, cinco anos mais velhas do que as que tiveram mães com uma gestação tranquila.
Nossas pesquisas prévias sobre o estresse pré-natal já haviam demonstrado seus efeitos de longo prazo no metabolismo, no sistema imunológico e nas funções endócrinas e cognitivas - diz Pathik D. Wadhwa, líder do estudo e professor de psiquiatria, ginecologia e obstetrícia, pediatria e epidemiologia da univesdidade. - Agora, no entanto, pela primeira vez mostramos o impacto do estresse pré-natal no envelhecimento das células humanas, indicando um importante fator biológico por trás das origens dos riscos de doenças nos indivíduos adultos.
Estudo focou só eventos extremos.
Embora admita que a associação encontrada na pesquisa não prove uma causalidade entre o estresse pré-natal e o encurtamento dos telômetros dos jovens e adultos, Sonja Entringer, professora-assistente de pediatria da universidade e outra autora do estudo, acredita que isso poderá ajudar a prever a ocorrência do fenômeno.
Nossos resultados indicam que a exposição ao estresse durante a vida intrauterina é um importante fator para predizer o comprimento dos telômetros de um adulto, mesmo depois de levar em conta outras influências pré-natais e pós-natais sobre ele - defende.
Segundo autores, os eventos extremos escolhidos para selecionar os que tiveram mães sob forte pressão psicossocial durante a gravidez - além da morte ou doença grave de parente próximo, ele incluem a perda da casa por questões financeiras ou desastres naturais - não têm efeitos apenas pontuais, gerando uma sensação crônica de estresse que leva a progressivas alterações em processos imunológicos, endócrinos e fisiológicos das gestantes. De acordo com Wadhwa, outras fontes e formas de estresse durante a gestação, como discussões com parceiro ou familiares e preocupações comuns quanto ao futuro, não fizeram parte do escopo da pesquisa, que presumiu que eles eram equivalentes tanto para o grupo dos filhos de mães sob pressão quanto os do grupo de controle.
Wadhwa acrescentou ainda que o estudo não pôde descobrir quais os potenciais mecanismos por meio dos quais o estresse materno afetaria a biologia dos telômeros dos filhos, mas adiantou que novas pesquisas estão em andamento para abordar a questão.
Nosso estudo certamente se soma ao crescente conhecimento sobre a importância do período intrauterino na futura vida e saúde de uma pessoa - destaca. Os telômeros menores aumentam o risco no desenvolvimento de várias doenças ligadas ao envelhecimento, como diabetes e problemas no coração. E, assim como para todas pessoas sob esse maior risco, a adoção de um estilo de vida mais saudável, com uma boa dieta, exercícios e gerenciamento do estresse, deve reduzir as chances de desenvolver essas doenças.
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