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30-11-2011

Remessas de imigrantes saltam 6 vezes em 10 anos e pode se estabilizar em 1 bilhão

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MATÉRIA REFERENTE AO TERCEIRO TRIMESTRE DE 2011
SÃO PAULO - O rápido crescimento das levas de imigrantes que chegam ao país - como revelou ontem O GLOBO - e a queda no número de brasileiros que se mudam para o exterior em busca de emprego estão afetando o fluxo de uma das principais fontes de dólares na conta corrente brasileira: as remessas. Ainda que o câmbio seja o principal fator a influenciar entrada e saída de moeda estrangeira no Brasil, a chegada de imigrantes estrangeiros - e a remessa de dinheiro para suas famílias em outros países - já chama a atenção de técnicos do Banco Central (BC), que admitem que o resultado no saldo de remessas está cada vez menor.

No caso das remessas de brasileiros que vivem no exterior para o Brasil, que chegaram a escostar em US$ 3 bilhões por ano antes da crise financeira que derrubou as economias dos EUA e da União Europeia (UE), o volume se estabilizou ao redor de US$ 2 bilhões e deverá se repetir este ano. Mas, desde 2009, as remessas mensais caíram para valores médios inferiores a US$ 200 milhões, algo que não ocorria desde 2006.

A entrada de imigrantes em massa, por sua vez, está acelerando as remessas em moeda estrangeira do Brasil para fora. Segundo o BC, este valor, que era de US$ 169,5 milhões há dez anos, chegou a US$ 855,4 milhões ano passado. Analistas estimam que este ano as remessas de estrangeiros no Brasil para o exterior encostem em US$ 1 bilhão pela primeira vez. Com isso, o saldo de remessas, que era de US$ 2,5 bilhões em 2006, chega a pouco mais de US$ 1 bilhão agora.

Essa estatística chama a atenção do Núcleo de Informação e Apoio a Trabalhadores Retornados do Exterior (Niatre), um centro de serviços e recolocação para os brasileiros que retornam ao país. A unidade experimental funciona num pequeno escritório na Liberdade, bairro japonês de São Paulo, parceria entre o governo e o Instituto de Solidariedade Educacional e Cultural (Isec), ONG que já atua com a comunidade japonesa. O centro também dá assessoria jurídica e cursos de línguas e de empreendedorismo com voluntários.

De janeiro, quando foi aberto, até julho, atendeu a 484 brasileiros vindos do exterior, 447 deles do Japão, quase todos descendente de japoneses: os dekasseguis. A maioria é homem (314), tem entre 26 e 55 anos, ensino médio (247) e morou entre cinco e 15 anos no exterior (320). Quase a metade já conseguiu trabalho, enquanto muitos aproveitam a poupança acumulada no exterior para escolher um novo emprego sem pressa.

- Muitos são da indústria e a demanda maior em São Paulo agora é no comércio - diz Reimei Yoshioka, presidente do Isec e coordenador do Niatre. - Mas os empregadores gostam porque os trabalhadores vindos do Japão são disciplinados.

No fim do ano passado, por causa da crise econômica, Lucas Okada, 53 anos, perdeu o emprego de metalúrgico no grupo japonês JFE. A trajetória de 20 anos no Japão sempre foi interrompida em intervalos de cinco meses a um ano, quando tentava ficar de vez no Brasil com a mulher e o filho. A poupança acabava e ele voltava ao Japão. Agora, diante da crise japonesa, de um real valorizado e do peso da idade, Okada decidiu que era hora de voltar de vez.

- A crise estava forte no Japão e muita gente perdeu emprego. A sorte é que o Brasil deslanchou, então muita gente decidiu voltar porque imaginou que conseguir um emprego aqui seria mais fácil. E foi o que aconteceu. O salário pode ser menor, mas há a vantagem de estar na terra da gente, né? - diz.

Em fevereiro, Okada obteve um emprego na loja de materiais de construção Nicom. O dono, Hiroshi Shimuta, amigo de Reimei Yoshioka, já empregou 30 dekasseguis que voltaram do Japão entre seus 320 funcionários.

- Tinha que dar nova chance a essa gente, em especial aos trabalhadores mais idosos - diz Shimuta. - Meu pai, que tinha tinturarias, ajudava os filhos dos japoneses que chegavam ao Brasil e quis fazer algo parecido.

A imigração vai aumentar

SÃO PAULO. Paulo Illes, diretor-executivo do Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC), acredita que o momento para se pensar em políticas para o setor é agora.

A questão dos imigrantes irregulares está diretamente ligada ao trabalho informal no país?

PAULO ILLES: Está e a regularização da situação dos imigrantes acaba sendo complicada porque eles não conseguem a identidade legal pois trabalham num negócio informal. Mas sem o documento legal, não há como arrumar emprego numa atividade formal ou como formalizar a sua microempresa. Ou seja, é um círculo vicioso.

E como os imigrantes irregulares sul-americanos vêm parar no Brasil?

ILLES: Ao contrário dos EUA, onde existe a figura do coiote, a maioria dos imigrantes sul-americanos atravessa normalmente a fronteira do Brasil com seus vizinhos. Eles vêm por redes familiares.Tios chamam sobrinhos, primos chamam primos, irmãos chamam irmãos. Não estão ligados a grupos criminosos.

Onde ficam os imigrantes irregulares?

ILLES: Os maiores estados receptores são São Paulo, Rio e Paraná, mas há uma enorme quantidade não mensurada em áreas de fronteiras de Mato Grosso, Amazonas e Acre.

Os imigrantes continuarão chegando?

ILLES:Não tenho dúvidas de que a imigração vai aumentar. Cerca de 350 mil bolivianos voltaram para a Bolívia da Europa e dos EUA, fugindo da crise, e eles podem buscar aqui as oportunidades que não acharam por lá. Hoje, eles são apenas 1% da população, mas o país não pode esperar o que aconteceu com EUA e Europa para só então adotar uma política oficial para essas pessoas. (Gilberto Scofield Jr e Marcelle Ribeiro)



Fonte: Jornal O Globo | Publicada em 31/10/2011
Informação em Destaque: Texto sublinhado e negrito
Esta notícia foi reproduzida para fins didáticos

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Última modificação em Qua, 30 de Novembro de 2011 13:04
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